O Menino e o Bumba, de Patricia Cornils, 13min, 35mm, 2007
Paulo César é uma personagem fascinante. Desde sua vontade de conhecer o pai biológico até sua fascinação cleptomaníaca por ônibus, talvez até interligadas, unidas pela vontade de fugir, de rodar o mundo a esmo. Adianto o filme pra quem não o viu, quem não quiser ler que pule: o garoto, aos 12 anos, roubou um ônibus e o dirigiu por algumas horas. Repetiu o feito mais algumas vezes, tendo parado na Febem em várias delas. Diz no filme que escolhia o caminho que achasse melhor. Essa noção de andar a esmo, sem rumo, foi pertencente ao discurso de vários surrealistas ao longo dos anos, como meio de transpor os limites óbvios da cidade e de sua organização. Falei algo sobre o tema em um texto no meu blog sobre o filme de Lelouch, C’était un rendez-vous.
O Menino e o Bumba se inicia seguindo essa viagem a esmo. Mostra o ônibus na sua caminhada, Paulo César junto à porta, olhando tudo. Depois de algum tempo se transforma. Volta à batida fórmula do documentário: depoimento + exposição. E então se detém a apenas nos contar os detalhes da história de Paulo César. A cineasta se deixou encantar, o filme acaba falando então, desse encantamento, e (quase) nada mais. Quando tenta, soa didático demais. Um erro corriqueiro do documentário expositivo, que se mostra refém do seu objeto. Mas não tão refém assim, felizmente.
Patrícia fala sobre o marginal (à margem) que roubou alguns ônibus e passou 1/3 de sua vida na cadeia (Febem). Mas evita julgá-lo, se recusa a contar as coisas com uma visão da patrícia-de-classe-média que se envolve com um tema social. É coerente, entende o perigo que corre quando se apropria de uma história e de muitas imagens e sons. Inteligente, cautelosa (e bastante simpática) sabe muito bem que não pode tecer esse tipo de julgamento. O Menino e o Bumba tropeça de leve, mas dando a certeza de que os próximos passos serão mais firmes e decididos.
ps: estava colocando a foto de divulgação do filme na página quando me deparei com uma questão: me parece preguiçosa a escolha desse tipo de material. Não sei quem é responsável por ele mas, imaginando ser os próprios diretores os arautos dos seus projetos, me parece esquisito que muitas fotos de divulgação dos curtas não digam absolutamente nada sobre eles, ou ainda, digam coisas irrelevantes. Não que se precise contar nada, mas a imagem primeira do filme é essa pequena foto. Porque então essa foto tão típica de entrevista documental se o filme é muito mais que isso? Porque a foto de Pugile, por exemplo, remete a um filme de ação e não ao drama que é? Será que todo o cuidado com a imagem se limita ao filme e não ao seus arredores? Questões…
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