Pugile, de Danilo Solferini, 2007, 21 min, 35mm, Brasil

Fazer filmes sobre pessoas com doenças parece simples. É simples, na verdade. Talvez como documentários com interessantes personagens, doenças como Síndrome de Down muitas vezes limitam o cineasta, deixando-o apaixonado pelo seu tema e esquecendo de todo o clichê possível que o cerca.
Pugile foge um pouco disso. Um pouco, como eu disse. A história dos dois irmãos que só se unem no momento de assistir a lutas ao estilo do antigo Super Catch é óbvia: o irmão sem doença cuida do outro, cria um mundo para ele, se importa em deixá-lo tranqüilo. Vemos até a mãe que adoece (ou morre mesmo?) e que, portanto, força essa paternalidade entre os irmãos. Ainda se utiliza do clichê maior de filmes desse tipo: um objeto qualquer que representa a relação dos dois e sua aproximação. No caso, o dominó. Pedrinhas essas que, como as folhas do concerto espalhadas pelo chão no curta de Marco Dutra Concerto nº3 (vencedor do Sal Grosso no Festival Universitário de Cinema Brasileiro há alguns anos) servem para mostrar claramente, escancaradamente, que as relações entre a família são forte e duradouras.
Porém, como todo filme assim, tem seus momentos bonitos, inevitavelmente. Quando o balão cai perto da casa deles e aparece o The Kid, grande herói das lutas. O momento onde se vê um novo lutador no papel do “Açougueiro” (é açougueiro mesmo?). A história é bonita, tratando inclusive da relação entre o diretor do filme e seu irmão, como ele mesmo explicou mais tarde, mas fica a sensação de que se conta a mesma história, do mesmo jeito.
Uma curiosidade apenas: a palavra “pugile” não existe em português, mas em italiano significa pugilista mesmo. Fiquei aqui remoendo algum motivo para a escolha desse nome, já que não há relação alguma entre entre o filme e a Itália e a relação de Super Catch e pugilismo é bem rasa. Foi então que me lembrei da tal cena do balão, onde os irmãos assistem na televisão a comemoração do título paulista pelo Palmeiras, time dos dois. Lembrei também que tudo isso se dá numa pizzaria, e em São Paulo. É então nessa camada inferior, sutil, que o filme se coloca de maneira mais vigorosa. Traça dentro do fino universo de coisas relacionadas à Itália uma malha que, pelo título, se estende às lutas e cria o ciclo de relações dos dois irmãos. O ciclo não se fecha, esse simbolismo todo não tenta explicar sentido algum, aliás sequer tenta aparecer. Mas está lá, pra quem quiser ver.
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