Revista Moviola – Revista de cinema e artes » Pugile

Pugile


Por

Publicado em 30 de Outubro de 2007

Pugile, de Danilo Solferini, 2007, 21 min, 35mm, Brasil

Pugile

Fazer filmes sobre pessoas com doenças parece simples. É simples, na verdade. Talvez como documentários com interessantes personagens, doenças como Síndrome de Down muitas vezes limitam o cineasta, deixando-o apaixonado pelo seu tema e esquecendo de todo o clichê possível que o cerca.

Pugile foge um pouco disso. Um pouco, como eu disse. A história dos dois irmãos que só se unem no momento de assistir a lutas ao estilo do antigo Super Catch é óbvia: o irmão sem doença cuida do outro, cria um mundo para ele, se importa em deixá-lo tranqüilo. Vemos até a mãe que adoece (ou morre mesmo?) e que, portanto, força essa paternalidade entre os irmãos. Ainda se utiliza do clichê maior de filmes desse tipo: um objeto qualquer que representa a relação dos dois e sua aproximação. No caso, o dominó. Pedrinhas essas que, como as folhas do concerto espalhadas pelo chão no curta de Marco Dutra Concerto nº3 (vencedor do Sal Grosso no Festival Universitário de Cinema Brasileiro há alguns anos) servem para mostrar claramente, escancaradamente, que as relações entre a família são forte e duradouras.

Porém, como todo filme assim, tem seus momentos bonitos, inevitavelmente. Quando o balão cai perto da casa deles e aparece o The Kid, grande herói das lutas. O momento onde se vê um novo lutador no papel do “Açougueiro” (é açougueiro mesmo?). A história é bonita, tratando inclusive da relação entre o diretor do filme e seu irmão, como ele mesmo explicou mais tarde, mas fica a sensação de que se conta a mesma história, do mesmo jeito.

Uma curiosidade apenas: a palavra “pugile” não existe em português, mas em italiano significa pugilista mesmo. Fiquei aqui remoendo algum motivo para a escolha desse nome, já que não há relação alguma entre entre o filme e a Itália e a relação de Super Catch e pugilismo é bem rasa. Foi então que me lembrei da tal cena do balão, onde os irmãos assistem na televisão a comemoração do título paulista pelo Palmeiras, time dos dois. Lembrei também que tudo isso se dá numa pizzaria, e em São Paulo. É então nessa camada inferior, sutil, que o filme se coloca de maneira mais vigorosa. Traça dentro do fino universo de coisas relacionadas à Itália uma malha que, pelo título, se estende às lutas e cria o ciclo de relações dos dois irmãos. O ciclo não se fecha, esse simbolismo todo não tenta explicar sentido algum, aliás sequer tenta aparecer. Mas está lá, pra quem quiser ver.

Veja a Cobertura Completa do Curta Cinema 2007

: : Compartilhe

    

    Deixe um comentário

    (obrigatório)

    (obrigatório)


    Dê a sua opinião. Mas lembre-se: os comentários serão moderados. Apenas após análise dos editores eles serão postados.



    RSS feed para comentários deste artigo | TrackBack URL

     

    Por Paulo Ricardo de Almeida

    26 de Outubro de 2011

    Políssia, França, 2011, de Maïwenn Maïwenn acompanha o dia-a-dia da unidade policial que combate os crimes sexuais contra crianças. A câmera, sempre instável e contingente, flagra momentos breves, que revelam menos as investigações em si e mais as agruras psíquicas e emotivas que solapam as personagens em contato com a pedofilia. A narrativa de Políssia [...]

    Por Rodrigo Cazes

    20 de Outubro de 2011

    Caminho para o nada, Monte Hellman, EUA, 2011 O cinema é uma manifestação artística com imensa capacidade para reproduzir a realidade, graças a sua reprodução ótica a 24 quadros por segundo. Mas, ao mesmo tempo, também possui uma enorme natureza de ilusão, devida à sua natureza de cópia e, nos dias de hoje, às ilusões [...]

    Por Paulo Ricardo de Almeida

    19 de Outubro de 2011

    Drive, EUA, 2011, de Nicolas Winding Refn No clímax de Drive, Bernie e o herói se enfrentam na rua, à luz do dia, mas vemos apenas suas sombras. Para a Los Angeles “oficial”, de fato, eles não existem – são personagens marginais, que vivem nos subterrâneos da grande metrópole. O herói não tem nome. Quando [...]

    Por Luciane Quoos

    18 de Outubro de 2011

    Dublê do diabo, Bélgica/Holanda, 2011, Lee Tamahori Assistindo ao filme Dublê do diabo sem saber que era baseado no livro escrito por Latif Yahia, um oficial do exército iraquiano que foi obrigado a passar-se pelo inescrupuloso Uday Hussein, filho de Saddam Hussein, concluímos que é um bom filme de ação, com cenas eletrizantes, uma câmera [...]

    Por Paulo Ricardo de Almeida

    18 de Outubro de 2011

    O Moinho e a Cruz, Suécia e Polônia, 2011, Lech Majewski   O Moinho e a Cruz desvela as forças econômicas, sociais, políticas e até ecológicas que se articularam para a confecção do quadro “O Caminho do Calvário”, de Pieter Bruegel: o relacionamento do pintor com o banqueiro e mecenas flamengo Nicolaes Jonghelinck, a presença [...]

    Anima Mundi Animação animações Brasil Cachaça Cinema Clube Cannes CCBB Cineclube Cinema cinema brasileiro Cinema francês Curta Curta-metragem Curtas Debate Documentário Entrevista FBCU Festival Festival de Cannes Festival do Rio Festival do Rio 2009 Festival do Rio 2010 Festival do Rio 2011 festrio França Gay Iraque Juventude Literatura Memória Mix Brasil Morte Mostra Mostra de Tiradentes Música Odeon Oscar Poemas Poesia Rio de Janeiro Romênia Teatro Versos É Tudo Verdade

    WP Cumulus Flash tag cloud by Roy Tanck and Luke Morton requires Flash Player 9 or better.