fantasmagoria
do Gr. phántasma, visão + agoreúo, anúncio
s. f., Teat.,
cenário fantástico de figuras e luzes;
arte de fazer ver fantasmas ou figuras luminosas na escuridão;
evocação de visões;
o aparelho com que se obtém esse resultado;
fig.,
falsa aparência;
utopia.
Desde que sou pequeno o cinema vêm até mim como fábrica de sonhos. É até meio brega assumir isso, eu sei, mas sempre foi assim. Desde minha paixão por Super-Homem II, que assisti umas mil vezes, passando por Fievel, o ratinho, até De Volta para o Futuro, Goonies, Conta Comigo, Dick Tracy, Chaplin, Blade Runner, Indiana Jones, ET. Depois em coisas mais sofisticadas, talvez, mas sempre sonhando. O cinema sempre ajudou a viver um pouco mais, a vivenciar mais histórias, saber mais, entender melhor as coisas. Se em algum momento da vida eu amadureci, certamente foi vendo filmes. Sim, as mulheres que passaram pela vida também ajudaram, os pais, tudo. Mas os filmes internalizaram uma série de sentimentos e experiências que, aos 25 anos, posso dizer que já vivi e aprendi.
No meio de uma madrugada insossa liguei a televisão e, no antigo canal Locomotion, passava um desenho animado, esquisito por ser oriental e não ter traços de mangá. Assisti um trecho, e logo depois outro. Eram vários episódios de 5 minutos, acerca de um fantasioso planeta chamado Phantasmagoria. Cativantes episódios. Acabaram e eu fiquei ansioso por mais. Por sorte, no dia seguinte lá estavam quatro partes novinhas. Gravei tudo, mas perdi a fita há uns anos. Na internet, o único trecho que encontrei foi este, da Fábrica de Cores.
É singelo, surpreendente talvez. Difícil falar de coisas tão amenas, tão simples e felizes, beirando o brega. As histórias desse mundo, todas elas de gente sonhadora, de espetáculos absolutos da beleza e alegria do mundo, são também antros repletos de melancolia. E daquela melancolia rasgada que faz a gente ficar triste de tão feliz.
O processo da narração em OFF, procedimento que tipicamente deixa tudo um pouco brega demais, aqui funciona
como pensamento, como alusão imediata à tal melancolia que falei. Tamura Shigeru escolhe bem suas palavras (se pegarmos a junção das traduções em espanhol e português), delineia bem sua narrativa. Os planos fixos nos deixam observar seus maravilhosos cenários, sua fantástica aventura pela descoberta de um mundo que parou na saudade. Um pescador num oceano de vidro conta ao redor da fogueira que, acompanhado pelo seu gato, viu um navio enorme uma vez, andando lentamente sobre o tal oceano estático. Seu amigo, que ouvia a história, desacredita. Ele reitera: “O navio existia, eu vi, existia”.
Em Glassy Ocean, curta de uns 20 minutos, a ação (?) se passa em torno de um mar que parou no tempo e, assim, uma baleia lentamente percorre seu vôo suspenso. O tempo de Shigeru é outro, se sugere aos poucos, é sempre da memória e do passado. O tempo suspenso permite a observação lenta e contemplativa dos fenômenos mais simples e cotidianos. As milhões de histórias de Fantasmagoria - como a da enorme lâmpada enterrada na areia que, mágica, se acende de súbito – se juntam e intercalam na criação de um mundo que não é mais nada que o tal “cenário fantástico de figuras e luzes” da definição do dicionário. Aliás, me engano, é muito mais que isso.
Ao fim de todos os episódios, ouvimos a mesma frase: “Esta é uma história desse mundo”. Em um deles, que não consigo mais encontrar, Tamura Shigeru nos fala de um lugar onde as pessoas se juntam para observar um enorme projetor lhes proporcionar o espetáculo de uma Aurora Boreal. E essas pessoas de várias idades, viajantes longínquos, sentam-se próximas umas das outras, olhando a incrível maravilha que projeta sonhos.
obs: Tsai Ming-Liang, em seu trecho de A Cada um Seu Cinema usa um processo que me lembrou muitíssimo a Phantasmagoria de Shigeru. Tanto pela narração em OFF e os planos fixos, mas pelo nostálgico clima de lembranças, pela melancolia da despedida, pelo ambiente onírico, pela música, pelo cinema. Tsai deve ter assistido Shigeru e gostado.
29 Outubro, 2007| 10:10 pm
Adoro ler seus comentários, sempre com
citações que me identifico.
15 Janeiro, 2008| 2:19 am
Excelente comentário. Como a Sonia disse identifiquei-me muito.
15 Janeiro, 2008| 8:16 pm
Obrigado por ambos os comentários. Que bom que há uma identificação, com o texto e com o filme. Tamura Shigeru é pouco conhecido por aqui mas é um grande nome da animação. Seria ótimo se a televisão (paga, no caso) resolvesse passar mais coisas dele, ou passar de novo. Abraços e continuem por aqui!