Revista Moviola – Revista de cinema e artes » Jane B. por Agnès V.

Jane B. por Agnès V.


Por

Publicado em 6 de Outubro de 2007

Cartaz de Jane B. por Agnès V.Eu te amo Jane Birkin! É assim que um espectador desavisado, ou não, sai da sessão de Jane B. por Agnès V., filme de 1987. A diretora Agnès Varda usa a câmera como se fosse um pincel para revelar as mini-ficções e mini-confidências do belo, engraçado, meio louco e rico universo da atriz e cantora inglesa. Varda desenvolve um diálogo livre com a atriz e pinta vários quadros com seus personagens. O filme foi exibido na Maison de France e fez parte da programação do Festival do Rio.

A diretora insere uma das musas de Blow Up, que causou escândalo à época por ficar 20 segundos nua no filme de Antonioni, em quadros de Ticiano e Goya. A textura dos quadros confundem-se com a pele de Birkin. A câmera que roça sua pele possibilita um diálogo entre mulheres, a que filma e a que é objeto de filmagem. Varda fica diante de sua própria câmera e explica o porquê de realizar essa cinebiografia. Seu desejo era trabalhar com as mitologias da atriz e com o imaginário dos que a vêem.

Birkin é um dos ícones da década de 1970 e, além de acessar suas memórias, fala de suas três filhas e de sua relação com o cantor Serge Gainsbourg, com quem casou e realizou diversos trabalhos, incluindo a canção Je t’aime, moi non plus, que se tornou famosa por simular uma transa entre os dois, com gemidos e tudo. Ela é uma femme fatale com olhar puro. Varda afirma que Birkin é uma paradoxo.

A mulher e o mito se mesclam nos cenários onde Varda a coloca. A atriz analisa seu trabalho, os filmes que fez e as centenas de fotos para as quais posou; expõe a forma como olha o mundo aos 41 anos – atualmente ela está com 61; e interpreta personagens que nunca fez no cinema. Varda veste Birkin de Joana D’arc. “Eu não poderia fazê-la no cinema por causa do meu sotaque. Como ia dizer a fala: ‘vamos expulsar os ingleses da França’?”, confessa para a diretora e para o espectador.

As mini-ficções funcionam como esquetes cinematográficas. Ela cantarola uma canção com trejeitos de Marilyn Monroe. Num cenário de Tarzan, diz que não faria a Jane, mas sim um dos personagens masculinos. Faz Stanley, o magro, da dupla Laurel & Hardy (o Gordo e o Magro, no Brasil). Entre as confissões, memórias e o jeito que Birkin enxerga o mundo, Varda torna o filme um passeio. Esta é a sua intenção. A diretora constrói seus labirintos e Birkin, como Ariadne, nos conduz. O fio entre a realidade e a ficção é tênue.

Após o filme, Jane Birkin chegou para um bate-papo com o público. Ela veio para o festival para divulgar seu novo longa Caixas e chamar atenção para sua campanha de sensibilização à crise em Mianmar (antiga Birmânia), que envolve jovens budistas e estudantes.

Foram apenas dois dias e uma noite no Rio, suficientes para ela falar do convite que fez a Geraldine Claplin para participar de Caixas. Inicialmente, ela queria que Rosanna Arquette fizesse o seu papel. Como Rosanna não pôde, Birkin convidou Geraldine, que recusou interpretá-la e disse: “posso fazer a sua mãe, mas não você!”. O filme é uma autobiografia de Birkin, mas ela o define como uma história de uma mulher de 47 anos, com três filhos e muitas questões. Foram 15 anos para fazê-lo, disse.

“Vocês me olham e o tempo passa” foi uma boa ironia para a sessão no Cinemaison. A frase foi dita em Jane B. por Agnès V. Nesse sessão, o Festival do Rio possibilitou que pudéssemos sentir o tempo no contexto dos dois filmes apresentados e, especialmente, durante o bate-papo com a atriz, no momento presente.

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2007



Deixe um comentário

(obrigatório)

(obrigatório)


Dê a sua opinião. Mas lembre-se: os comentários serão moderados. Apenas após análise dos editores eles serão postados.



RSS feed para comentários deste artigo | TrackBack URL

 

Por Revista Moviola

28 de Outubro de 2019

                            Em 2020, o Internacional Uranium Film Festival comemorará uma década. O evento é o único no país dedicado a expor e debater o invisível mundo atômico e seus riscos radioativos. Em quase uma década, o festival reuniu produções cinematográficas de vários […]

Por Revista Moviola

19 de Outubro de 2019

              O longa-metragem Fendas apresenta uma protagonista mulher e paisagens, sons e imagens que envolvem seu trabalho num centro de pesquisas no Rio Grande do Norte. Seus objetos de pesquisa e seu cotidiano se mesclam. A personagem, uma cientista do campo da física, captura imagens de pessoas à distância. […]

Por Marcella Rangel

22 de Março de 2019

Se7en (1995) é o segundo filme do diretor David Fincher, no elenco, Brad Pitt, Morgan Freeman, Gwyneth Paltrow e Kevin Spacey na pele de um serial killers dos mais interessantes do cinema. O filme conta a história de David Mills (Pitt) e sua mulher, Tracy (papel de Paltrow), o casal esta de mudança mudaça para […]

Por Revista Moviola

20 de Março de 2019

Nos arredores de Orlando, na Flórida, em hotéis e complexos de quinta categoria – com imitações plastificadas de atrações dos parques tão próximos da Disney – são oferecidas estadias para turistas que querem economizar, como também servem de moradia, não oficial, para famílias americanas de baixa renda. Projeto Flórida (2017) é povoado por estes personagens, […]

Por Revista Moviola

15 de Março de 2019

O filme Encantada (2007) conta a história da princesa Giselle (Amy Adams), que mora no reino de Andalasia. Certo dia, após cair em um poço, ela vai parar na cidade de Nova Iorque. Lá encontra Robert (Patrick Dempsey), um procurador e se hospeda no apartamento dele. Edward (James Marsden), o príncipe de Andalasia, também cai […]

Anima Mundi Animação animações Brasil Cineclube Cinema cinema americano cinema brasileiro Cinema francês Crítica Crítica Cinematográfica crítico de cinema Curta Curta-metragem Curtas Documentário Entrevista Facha Festival Festival de Berlim Festival de Cannes Festival de Veneza Festival do Rio Festival do Rio 2009 Festival do Rio 2010 Festival do Rio 2011 Festival do Rio 2012 Festival do Rio 2013 festrio ficção filme Gay Literatura London Film Festival Luiz Rosemberg Filho Mix Brasil Mostra Mostra de Tiradentes Odeon Oscar Poemas Resenha Rio de Janeiro Versos É Tudo Verdade

WP Cumulus Flash tag cloud by Roy Tanck and Luke Morton requires Flash Player 9 or better.