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Um Ramo


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Publicado em 5 de Outubro de 2007

Um Ramo, de Juliana Rojas e Marco Dutra, 15min, 35mm, 2007

um_ramo.jpgNarciso teria vida longa se jamais contemplasse sua figura. Talvez se tivesse seguido à risca essa obstrução, o mundo seria diferente hoje. Mais provável que não, enfim. Logo neste século XXI, tão apegado à imagem, à beleza pura e limpa, à importância do visível, do exterior, do superficial (de “estar na superfície”).

Clarisse então descobre a tal folha em seu braço. Antes disso, havia limpado a casa e tomado um café, olhando a paisagem urbana da metrópole e libertado um pássaro da prisão de sua casa. Aparece na frente do espelho (claro, claro) removendo a folha nascida com uma pinça, até então escondida pela luva de limpeza. O abalo é imediato e o filme se recusa a falar de qualquer outra coisa.

Estamos lidando com algo importantíssimo na conjuntura moderna: a aparência. A doença de pele de Clarisse é então perturbadora dessa bela paz do olhar, dessa contemplação serena da vida bela. A figura estranha do médico careca e de barba finge não ser nada. Mas a doença de pele de Clarisse e seu medo de contato visual só intensificam. Junto com o aumento da área atingida pela doença, claro.

Clarisse então vai lentamente desaparecendo do convívio, fugindo da vista de outras pessoas, se escondendo bem longe da multidão avassaladora de seres humanos “belos e normais”. Como o que a aflige são pequenos brotos de vida surgindo de sua pele – podemos sempre entender a presença da natureza como alusão à vida ou, ainda, como menção direta do Caos e da presença tortuosa da verdade divina – a procura pela doença no filho é óbvia e imediata. Mas fica tranquilizada, Clarisse, que teu filho está bem.

Clarisse esconde seu corpo, cobre todas as partes possíveis, nega, tenta (sobre)viver. A doença se espalha rápido, diz o médico, não encontrando semelhante mal em nenhum lugar de seu livro – ou talvez encontrando, mas sem nos deixar evidente, poupando-nos também dessa visão aterradora. As folhas nos escondem uma visão clara da doença de Clarisse. Quanta dor podemos ver hoje? O cinema porém, perscrutador, teimoso e folgado, invade Clarisse. Escancara sua alma apática e indolente.

Clarisse diz à empregada que viajará. “Mas continue a vir, ao menos por enquanto”, completa. Toma banho. A nudez ainda esconde o corpo, mas não esconde o mal. Clarisse se envergonha desse espectador inconveniente que é a câmera, se vira. E se fecha para o mundo.

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