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Onde Andará Dulce Veiga?


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Publicado em 4 de Outubro de 2007

Onde Andará Dulce Veiga?, de Guilherme de Almeida Prado, 2007, Brasil. Premiére Brasil

POR ONDE ANDAVA CAIO F.?

Pausa megalômana: Marilene, eu vou escrever um excelente livro. Quero esse clima de decadência do filme de Brian de Palma [O filme, no caso, é Dublê de corpo, de 1984]. Quero rasgos de lirismo tão incoerentes no meio da lama que chegam a soar absurdos, com momentos de loucura. Tenho TUDO na cabeça. Tremo de pensar. E fico meio bêbado. E não meto mãos à obra. As notas se acumulam. Mas vai, vai. (De uma carta de Caio Fernando Abreu a Jacqueline Cantore, 18 de abril de 1985, in Caio Fernando Abreu: cartas, organização de Ítalo Moriconi. Rio de Janeiro, Aeroplano, 2003. “Marilene” era um dos apelidos que Caio dava à amiga Jacqueline (outro muito usado é “Anthea”)… e, em certos casos, a ele mesmo, Caio.)

E foi, foi. Cinco anos após esta carta, seu romance B Onde andará Dulce Veiga? chegava às livrarias. E, para o bem do meu bolso (que era – e é, até hoje – cada vez mais vazio), às bibliotecas. E dezessete anos depois, o filme finalmente chega às telas, depois de uma longa e trabalhosa produção. (Aliás, para os que continuam baixando o pau nas leis de incentivo, um lembrete: com elas demora-se quatro ou cinco anos para fazer um filme – e, concordo, é muito tempo para tal – mas sem elas – a menos que apareça uma solução melhor, mais prática e mais honesta do que “deixar nas mãos do ‘mercado'”, que não é livre nem a pau – demora-se mais tempo – quando se consegue. Basta lembrar a experiência conduzida por Ipojuca das Mortes, a serviço daquelle caçador de maracujás…)

Depois de tanto tempo, deu para entender o motivo pelo qual Caio confiou a Guilherme de Almeida Prado a adaptação de seu romance B., do qual podemos dizer que está mezzo aliche, mezzo mussarela (ôrra, bicho, tá muito paulistano este comentário, meu!). Ou seja, está 50% Caio Fernando Abreu (isto é, ligeiramente fiel à linha narrativa, às aspirações dos personagens – enfim, à essência do romance), 50% Guilherme – especialmente por seus pontos de contato.

Breve parêntesis para um breve esclarecimento. Adaptar literatura para a tela grande – ou mesmo para a tela pequena, leia-se TV, não é tão simples assim. Uma coisa (literatura) é uma coisa, outra coisa (cinema) é outra coisa, embora o segundo tenha bebido muito também na primeira, para estruturar a sua dramaturgia. Há certos limites. A melhor tradução de um livro para um filme não é a simples transcrição do livro – coisa que Paulo Thiago até hoje não aprendeu, o que explica a longa lista de “vítimas” (Sagarana, de Guimarães Rosa – assassinado em um dos contos de Sagarana: o duelo, 1965 – Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto – massacrado em Policarpo Quaresma, herói do Brasil – etc.). Mas também não é reescrever totalmente a história de um livro ao bel-prazer do diretor ou do produtor. Nestes limites, um filme que consiga manter a essência do livro e, ao mesmo tempo, criar uma cine-dramaturgia atraente para o espectador é uma boa adaptação para o cinema. É o que Guilherme tenta fazer com Onde andará Dulce Veiga?, que já nasceu cinematográfico. Assim como já o fez com Cambio de luces, de Julio Cortazar, em A hora mágica (1998).
O cinema de Guilherme de Almeida Prado é auto-referencial, voltado para o cinema dos anos 40. Mais especificamente, com ícones e atmosferas dos filmes B de Hollywood (o subtítulo de Onde andará Dulce Veiga? é “Um romance B”), principalmente o film noir – clima que perpassa o livro e se sente em casa no filme, já que freqüenta o cinema de Guilherme desde A dama do cine Shanghai (1987). É verdade que o cinema de Guilherme leva também toques de cinema mexicano – o melodrama às vezes derramado, o kitsch – que encharcaram seus filmes anteriores (tipo assim, uma pessoa que praticamente toma um banho de perfume).

Não, nada disso é muito grave. Nem mesmo alguns momentos, pouco depois do meio até o final do filme, em que o ritmo cai e a estrutura narrativa quebra.

Grave mesmo é uma certa irregularidade do elenco, bem como a falta, mudanças e subaproveitamentos de alguns personagens. Cadê Pedro – personagem importante para algumas descobertas pessoais do herói da história? (Quem leu o livro, sabe de quem e do que estou falando.) Por que Saul – o amante militante de esquerda de Dulce – virou Raudério (Carmo della Vecchia, discreto)? O contínuo Pai Tomás virou Oxumaré. Legal, mas para quê, se não ganhou função maior no filme do que no livro? Filemon, personagem do livro, não faz falta no filme, mas pra que dar uma de suas características – seu misticismo de boutique (“Você tem Jesus dentro de si!”) – para a namorada de Márcia F., Patrícia? (Aliás, por que deixaram que Maíra Chasseraux defendesse este personagem denso com uma atuação fria e indigna mesmo de peça de colégio?)

Ainda sobre personagens e elenco: em alguns momentos, vários diálogos são fiéis ao livro. Alguns são perfeitamente cinematográficos, outros não – o que cria uma armadilha para os atores, que precisam escapar do recitativo, do teatral (no mau sentido) e mesmo do involuntariamente caricatural para defendê-los. Mas se tais armadilhas não existissem, isso não adiantaria nada para algumas figuras do elenco. Apesar de seu prestígio como diretor de teatro (embora não dirija uma peça há alguns séculos), Cacá Rosset já é caricatural por natureza como ator; conseguiu tornar o personagem Castilhos mais caricatural ainda. Oscar Magrini (outro membro da tribo guilhermiana) bem que tenta, mas seu Alberto Veiga não sai do estereótipo do gay-enrustido-mas-que-dá-bandeira-e-é-pretensiosamente-refinado.

Mais grave ainda: a retirada do clima de ameaça da AIDS, presente no romance (e, por tabela, em grande parte da obra de Caio Fernando Abreu a partir dos anos 1980). Esse era essencial no livro para as atitudes de muitos de seus personagens. – mais especificamente, de seu protagonista e de Márcia F. Se isso foi feito pela crença de que o tema AIDS possa afastar o respeitável público do filme e dos dilemas de seus personagens, meus parabéns: acaba de ser cometida a burrice do ano.

Então não tem nada de bom nesse filme, tio?

Tem, sim.

Você pode se divertir, por exemplo, com as, digamos, pegadinhas simbólicas de Guilherme. O papagaio-símbolo de Rafic (Nuno Leal Maia, tirando do armário o eterno gestual do banqueiro-de-bicho-apaixonado-por-minha-deusa Tony Carrado, de Mandala), na porta de seu escritório e em outros enfeites, tem cabeça de papagaio, mas o corpo e as asas tem o mesmo desenho da Hoheitsabzeichen nazista – é, daquela águia nefanda. Dá para pensar se é alguma referência sutil-feito-uma-jamanta à personalidade ou às tendências políticas de Rafic. Já o isqueiro em forma de Cristo Redentor na casa de Lyla Van (Christiane Torloni) – ou, no livro, Lilian Lara, que muda para o nome da personagem-fetiche do diretor desde A dama… – parece que dispensa interpretações muito elaboradas, não?

Ah, sim, lembra do que falei sobre a presença forte do melodrama e do kitsch? Ótimo. Pois não é que, desta vez, o melodrama se fez presente em doses homeopáticas – tipo assim, como gotas de perfume no lóbulo da orelha, ou no pescoço…? O kitsch aparece em quantidade um pouquinho maior, misturando-se ao clima onírico do filme, mas, por incrível que pareça, não o estraga muito.

Clima onírico? Sim. Se a vida é sonho, o romance de Caio Fernando Abreu também o é – um sonho perpassado brutalmente pelo real (e pela ameaça da AIDS). Porque o filme não o seria?

Sobre as tais armadilhas colocadas por certos diálogos: alguns dignos membros do elenco escapam delas – como Francarlos Reis (o pianista Pepito), ou a Teresinha O’Connor criada por Imara Reis, integrante de longa data da tribo de Guilherme. (Ah, sim, mais um parêntesis: o cineasta é bem tribal, sempre trabalha com os mesmos atores e equipe técnica.) Ou como Júlia Lemmertz, em sua breve aparição como Lídia, ainda que equivocada pela ambigüidade de uma personagem apenas citada. Guilherme achou que Lídia era ex-mulher do herói; quando foi inspirada em Maria Lídia Magliani, artista plástica e amiga de Caio pela vida inteira – que, em meados dos anos 80, fugiu da grande cidade e foi morar em Tiradentes por algum tempo.

Mais um parêntesis: vários trechos de Onde andará Dulce Veiga? fazem-nos crer que a Lídia do livro tem a ver com a Lídia real. Entre 1986 e 1991, Maria Lídia Magliani dividiu uma casa em Tiradentes com a aquarelista Maria José Boaventura (Marijô). Em Dulce Veiga?, a personagem Lídia foge para o interior de Minas Gerais – feliz por abandonar a cidade grande e suas neuras – e deixa seu apartamento para o herói, desempregado e duro. A dúvida só foi tirada em uma das cartas de Caio para Maria Lídia, pedindo-lhe permissão para batizar esta personagem apenas citada com um de seus nomes. (Ver Caio Fernando Abreu: Cartas, op. cit.)

Ah, sim, falta o trio de protagonistas.

Primeiro, Dulce Veiga (Maitê Proença, membro da tribo guilhermiana desde A dama…), o ícone motivador de toda a jornada do herói (da história; até tem a ver, ma non troppo, com a outra, teorizada por Christopher Vogler em sua Jornada do escritor, mas isso são outros quinhentos romances ou filmes…). É, o termo é esse mesmo: ícone. Guilherme retrabalhou Dulce Veiga – ícone quase mágico, que chega ao real, no livro, tornando-a um ícone não-passivo dos anos 60. E é assim que andará Dulce Veiga pelo filme, mesmo no encontro final entre ela e o herói: ela é real, mas continua, paradoxalmente, um ícone na mente dele. E só Maitê Proença para ser este ícone sem transformá-lo em manequim-de-vitrine.

Segundo, o herói do livro – que no filme ganha o nome (claro…) de Caio de Almeida (Eriberto Leão). Falta-lhe Pedro, falta-lhe a ameaça da AIDS, falta-lhe a ambigüidade sexual, sobra-lhe banho de loja (ficou um herói tipo “bundinha”: limpinho, perfumadinho, arrumadinho…). Mas dentro dos limites impostos pela cine-dramaturgia de Guilherme, Caio se movimenta de modo digno, sem arroubos.

Finalmente, Márcia Felácio, ou Márcia F., a estréia de Carolina Dieckmann na telona. Essa foi uma grata surpresa para quem ficou de orelha em pé quando seu nome foi anunciado para o papel. Claro, falta-lhe também a suspeita de AIDS, falta-lhe uma Márcia mais apaixonada que a ame (ou uma atriz melhor para interpretá-la, quem sabe…). Mas dentro dos limites impostos pela cine-dramaturgia de Guilherme – e passando por cima de alguns outros limites (mas nem todos), impostos pela tele-dramaturgia – sua Márcia F. se movimenta intensamente pelo filme.

Enfim, falta a Onde andará Dulce Veiga? os rasgos de ousadia do livro, falta-lhe uma estrutura narrativa firme. Mas dentro dos limites impostos pelas falhas e omissões de que falei acima, e da própria dramaturgia cinematográfica (ou, por outra, pela tradução da literatura para esta dramaturgia cinematográfica), história e personagens de Caio Fernando Abreu caminham dignamente pelas mãos de Guilherme de Almeida Prado.

Antonio Paiva Filho é editor de Sombras Elétricas.

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2007



1 Commentário sobre 'Onde Andará Dulce Veiga?'

  1.  
    JOHN CLIFFORD

    8 Janeiro, 2008| 7:40 pm


     

    DO YOU KNOW THAT I’VE HEARD THAT GUILHERME ORIGINALLY APPROACHED HIS FRIEND CAIO AND ASKED HIM IF HE WOULD WRITE A SCRIPT WITH HIM ABOUT THE SEARCH FOR A FICTIONAL LOUNGE SINGER CALLED DULCE VEIGA. THE CHARACTER AND STRUCTURE WERE ALREADY CREATED BY GUILHERME. AND SIMILAR TO HIS OTHER FILMS IF YOU KNOW THEM. WHEN CAIO REALIZED HE WAS ILL HE ABANDONED THE SCRIPT BUT USED THE CHARACTERS AND STRUCTURE TO WRITE ABOUT HIS OWN PERSONAL ODYSSEY WITH AIDS AND A SEARCH FOR LIFE’S MEANING. HENCE THE DEDICATION TO GUILHERE IN THE NOVEL. WHAT GUILHERME SIMPLY DID FOR HIS FILM WAS WRITE A SCRIPT BASED ON THE NOVEL BASED ON HIS SCRIPT AND PERSONALIZED IT AFTER HIS OWN ODYSSEY AND BATTLE WITH CANCER.IN HIS OWN SEARCH FOR LIFE’S MEANING.

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