
Lady Chatterley, de Pascale Ferran, 2006, França. Mostra Panorama.
A sensualidade é visual e todos sabem disso, qualquer um poderia fazer um filme com sensualidade ao alcance fácil dos olhos. Agora, poucos percebem que a sexualidade é também visual – mas não apenas. Feito isso, há ainda a longa descoberta de como colocar corpos dentro de um filme afim de exaltar não só a sensualidade desses corpos, mas deixar aflorar seus íntimos desejos sexuais.
O primeiro passo vem pelo próprio título: Lady Chatterley é adaptação do romance do inglês D.H. Lawrence intitulado O Amante de Lady Chatterley. A mudança entre os dois é grande e nem um pouco gratuita. Fica claro que Pascale Ferran irá tratar do feminino. Não que isso não ocorra no livro, mas aqui é grifada a idéia de desejo feminino, do olhar da mulher sobre o corpo.
O filme é sobre uma aristocrata cujo marido, ferido na 1ª guerra, não pode sair da cadeira de rodas e, claro, não pode procriar. Ela então se apaixona pelo guarda-caça (uma espécie de caseiro-caçador), um homem muito mais bruto, muito mais interessante, muito mais físico. O primeiro contato entre os dois é unilateral. Ela vai à cabana do guarda-caça pedir-lhe o prato do próximo dia. Ao se aproximar, percebe que ele toma banho, com o torso nu. Fica estarrecida pela visão indiscreta, pelo flagra, mas enrubesce. Desde o primeiro momento, então, temos essa construção do corpo como instrumento de prazer. A diferença de abordagem em relação ao corpo entre ela e o marido é evidente até antes dessa sequência: ela o ouve conversar com os amigos sobre “causos” da guerra. Ele conta, rindo, que os alemães era como máquinas, seus canhões funcionavam exatamente de 3 em 3 minutos; conta também sobre seu amigo que perdeu a cabeça (literalmente) no campo de batalha e “Mesmo sem cabeça corria sem mim”. Mais uma vez, ri. Em um determinado momento, Clifford (o marido de Lady Chatterley), utiliza uma cadeira de rodas motorizadas para caminhar com ela. Ao tentar subir um morro com a cadeira, ela parece não aguentar. Teimoso, Clifford insiste. Parkin chega para tentar ajudá-lo, mas Clifford se nega a precisar de ajudar de um subordinado. Parkin ainda assim vai olhar o motor. O plano, enquadrando lateralmente Parkin, abaixado no motor, e Clifford, acima, sentado na moto diz tudo. Tanto em relação ao corpo de ambos, relação importantíssima na percepção do desejo de Lady Chatterley, quanto no que cerne a forte luta de classes que se evidencia ao longo de todo o filme, nesse clássico romance subversivo do subordinado com a aristocrata. Essa relação de classes se dá, ao longo da história, pela maneira como Lady Chatterley frui o corpo de Parkin, pela maneira como ela o conquista, pela maneira como eles se relacionam.

Essa relação com o corpo irá se construir na personagem de Marina Hands (a própria Lady Chatterley), curiosamente (devido ao nome da atriz), através das mãos. Seu desejo pelo caseiro surge pela vontade do toque, na verdade, pelo desejo carnal do corpo. Após o primeiro momento, onde ela se deixa dominar pelo guarda-caça Parkin, é ela quem domina a situação aos poucos. Sobre o primeiro sexo, frustrante para todos que o assistiram, Lady Chatterley afirma: estou feliz. Está feliz pois agora poderá explorar suas vontades, poderá se encontrar no corpo de Parkin. Aliás, fato interessante: Jean-Louis Coullo’ch, o ator que interpreta Parkin é, em diversos momentos, principalmente de perfil, idêntico à Marlon Brando. Mais uma camada de sedução e luxúria que se adiciona aos poucos ao filme.
Os dois repetem o ritual pouco interessante do sexo papai-mamãe-cabeça-no-ombro. Ela parece muito mais interessada que ele. Até que, voltando de uma visita a uma amiga, Lady resolve cortar caminho. O filme, aliás, é repleto de caminhos a se seguir, desde a passagem entre a grande casa e a casa de Parkin, dividida por um portão; passando pelo caminho que Clifford tenta criar com sua cadeira de rodas motorizada; assim como este, que Lady Chatterley resolve criar, ao seu gosto e onde ela reencontra Parkin. Eles se desviam para uma pequena clareira com uma árvore. E a mudança se dá lá.
Vestida toda de vermelho, ela senta por cima de Parkin. A sequência talvez remeta a uma Chapéuzinho Vermelho ousada, tranformando o caçador em algo mais que um simples herói. Ela, agora dominante, não é tão impetuosa como Parkin foi das outras vezes. A penetração é adiada, e dá lugar à carícias. Parkin passa a mão por dentro da saia dela e a acaricia intimamente com as mãos, exalando essa sexualidade parecida com desenhos eróticos japoneses do século XIX e explorada também em Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima: a curiosidade do olhar em saber o que se passa além do que se pode ver, reafirmada por pequenos pedaços de sexos, que aparecem para logo se esconder de novo. Eles ficam nisso por um tempo, gemendo baixo, se tocando e conhecendo e se beijam, aflitos, pela primeira vez. Ao fim, ele diz: “Dessa vez gozamos juntos”.

É nesse momento que começa a jornada sexual de Lady Chatterley (a personagem, como indica a falta de itálicos). Ele, que parecia pouco se importar com ela, agora corta mais um caminho, entra na propriedade e espia seu quarto. Ela, antes tímida, pede para ele: “não apague a luz, deixe-me vê-lo antes”. Tem a necessidade de ver seu corpo, de conhecê-lo. Numa conversa, ele pergunta o que ela gosta em sua pessoa. Ela responde, óbvia: “seu corpo”. Parkin então se deixa tocar, e Lady Chatterley usa suas mãos para acariciá-lo, lentamente, perscrutadora. Toda a construção do toque que o filme travou até aqui chega no seu êxtase.
Essa evolução da busca do prazer, do carinho, da cumplicidade, chega no seu ápice na sequência mais bela que tive a chance de assistir neste festival: chove. Lady Chatterley irá viajar em poucos dias, passar um mês fora. Ela está, mais uma vez, na cabana de Parkin. Olha para fora, tira as roupas e corre nua pela chuva. Ele, se despe de todo seu pudor machão, se sua aura de Marlon Brando e, claro, de suas peças de roupa também. Corre atrás dela, grita. A típica cena do casal feliz correndo e rindo como crianças não tem nada de clichê aqui. E só não o tem porque esses corpos nus não são quaisquer corpos, são corpos palpáveis, imperfeitos, feios até, se pensarmos no
conceito dominante de beleza – mas exatamente por isso belos como nenhum outro. Nos convidam a uma tarde de nudez na chuva, de cair na lama e trepar ali mesmo. É, eles não fazem amor. Eles trepam. Enlameados, como corpos em desejo extremo, deitados numa estrada de terra, mais um caminho. Nada de grotesco porém, é amor sim, mas sem frescuras.
Voltam para a cabana e, com folhas, se limpam da lama. Parkin, totalmente transformado de garanhão machista em jovial amante, colhe flores no jardim e decora sua musa, dos cabelos aos pelos pubianos. Riem.
Lady Chatterley vai então passar um mês fora. Chora ao se despedir, temendo um desencontro. Juras de amor são trocadas entre o sereno e seguro Parkin e a desesperada Lady. É longe que ela ouve notícias do retorno da esposa de Parkin à casa e do possível divórcio; ouve também a briga que Parkin se meteu num bar e que o deixou convalescente. Nada de óbvio quando sabemos que Parkin não morreu. Seria uma saída fácil para um história típica. Essa época romântica do amor que se vai já passou, e Pascale Ferran sabe disso (D.H Lawrence talvez soubesse também. A morte do romântico não é tão nova assim). Lady Chatterley retorna. Seu marido usa muletas e consegue ficar em pé. Parkin se mudou, devido à briga de posse com a (ex-)mulher.
À esmo, no meio da floresta, os dois se reencontram. Sentam para conversar. Parkin está sem emprego, sem futuro. Ela lhe oferece oportunidades, ele não aceita. Ainda quer reter seu orgulho masculino; ainda quer permanecer honrado com sua classe social. Mas, como no começo do filme, ela consegue dobrá-lo, consegue convencê-lo de que o amor é maior que a sensação de poder. A promessa de Parkin em aceitá-la, em esperá-la, denota então a queda desse bruto pelo mais singelo dos seres. Mais singelo ainda é perceber que o homem também faz juras de amor, e que as faz de coração.
ps: o filme vai estrear. É obrigatório pra quem perdeu. Lindo que só.
Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2007
27 Dezembro, 2010| 11:37 pm
Sem dúvidas é um filme instigante e imperdível.