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Tropa de Elite


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Publicado em 1 de Outubro de 2007

Wagner Moura é o Capitão Nascimento

Na estréia de Tropa de Elite, no Rio de Janeiro, tinha tapete vermelho, muita imprensa, celebridades distribuindo sorrisos e mais uma penca de gente sem convite vip. Era também a abertura do Festival do Rio.

Dias antes, o filme já estava na mídia. Tropa de Elite é um exemplo inédito do cinema nacional. Foco de uma pirataria sem precedentes, o longa-metagem de José Padilha caiu na boca do povo. Muito se falou. O próprio Padilha escreveu um artigo soltando fogo pelas ventas, pedindo punições e ameaçando até a imprensa, que ele acusava de ter visto o filme também em cópia pirata.

José Padilha e seus distribuidores também ouviram. Foram acusados de, eles próprios, terem desviado as primeiras cópias, o que se transformaria num bem bolado esquema de marketing viral. Estão apurando e parece que algum funcionário da pós-produção vai pagar o pato.

Sem querer entrar nos méritos judiciais, o fato é que Tropa de Elite é um sucesso retumbante. Não tenho notícias de como está a apreciação dos DVDs em outras praças do País. Mas no Rio de Janeiro, a aceitação é estrondosa.

E o que Tropa de Elite tem que despertou todo esse interesse? Quem desembolsou os R$ 10 pela cópia, levou para casa, entre outras coisas, uma refestelação sobre a falta do Estado nas favelas cariocas. Viu ali na sua TV, um filme que se apóia num ódio de classe que assola o Rio de Janeiro e, em graus diferenciados, o restante do País.

O sucesso de Tropa de Elite se pauta no tipo de expressão tão comumente ouvida pelas ruas, “que bandido tem mesmo é que ser morto”. Vide o caso da senhora que atirou na mão do assaltante e, de quebra, recebeu medalha da Câmara dos Vereadores; ou o caso das milícias (grupos paramilitares), que quando chegou à mídia, recebeu aprovação de grandes parcelas da sociedade.

José Padilha já havia explorado o mesmo tema no seu documentário Ônibus 174. Mesmo sendo uma obra documental, o filme tinha um forte viés melodramático. E é no seu clímax, que vemos uma multidão enfurecida querendo linchar Sandro, o seqüestrador do ônibus. Sandro morreria naquela mesma noite, após o fim do seqüestro, provavelmente assassinado pelos policiais.

Há um simplismo generalizado que assola o entendimento da violência e do narcotráfico. O Estado culpa o usuário de drogas, discurso que os policiais de Tropa de Elite não se cansam de repetir. A população, acuada, não quer nada além de tranqüilidade, nem que ela seja alcançada à base de bala.

E embora o filme de José Padilha apresente em algum momento a complexidade da questão, ela não é aprofundada. Aliás, o único policial do longa-metragem que tenta fazer faculdade e é o único dali que problematiza essas relações da violência, é solenimente recriminado pelo narrador, ou seja, pela voz do filme.

Sim, Tropa de Elite tem um narrador. É Wagner Moura (em uma atuação excepcional), que faz o Capitão Nascimento. É a partir da visão dele que o filme irá caminhar. O personagem de Wagner Moura é um homem bem cotado do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope). Mas ele está em crise. Seu filho irá nascer e ele precisa arranjar um substituto para as suas funções.

A partir daí o filme vai mostrar as várias incursões nas favelas, as torturas e os treinamentos dos homens de preto, como são conhecidos os policiais do Bope.

A crise do Capitão Nascimento não é meramente ficcional. Ela reflete um dado pouco debatido, o alto número de suicídios entre policiais. A pressão é gigantesca, os salários baixos, o risco de morte contínuo.

O sucesso de Tropa de Elite também se baseia na exploração de sentimentos primitivos. É o que o cinema norte-americano faz desde que se entende por gente: a divisão clara entre o bandido e o mocinho; a forte vontade de vingança.

Após a estréia do filme na tela de cinema, iniciou-se um debate na mídia ao acusar o longa-metragem de fascista. Não tenho certezas quanto até onde um filme pode ou não ir; até onde é ético apresentar valores que são contrários aos valores dominantes de uma sociedade. O que sei é que Tropa de Elite fez a opção deliberada de explorar um nicho de mercado baseado no ódio. É no ódio de um pelo o outro em que o filme se baseia. E é por isso que ele está fazendo todo o sucesso que está.

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2007

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15 Commentários sobre 'Tropa de Elite'

  1.  
    Yuri Borges

    4 Outubro, 2007| 12:19 am


     

    Aristeu, não voltamos aqui àquela mesma discussão estética levantada em torno de Cidade de Deus? Não se trata, em Tropa de Elite, de uma outra modalidade do que na época classificaram de “cosmética da fome”? Acho que o problema do filme está na aplicação de esquemas narrativos que visam a identificação do espectador… o que faz a nós, coitados, a certo momento, torcemos por um cara que tortura e executa e diz que essa é a única saída. Acaba funcionando como uma apologia à barbárie, mesmo que não seja essa a intenção do diretor, porque a opção estética – que é fácil e comercial – glamouriza a violência e os violentos. Aqui faz falta a proposta de um Iñarritu, que consegue, em um só filme, mostrar a realidade de diversos pontos de vista, muitos deles inclusive conflitantes. Tropa de Elite é bem feito, mas opta pelo caminho mais fácil e comercial, e, consequentemente, também mais limitado.

  2.  

    4 Outubro, 2007| 11:39 am


     

    Yuri, não tenho certeza se podemos colocar o Tropa de Elite na mesma categorização de Cidade de Deus. Óbvio que o filme de José Padilha só existe porque Cidade de Deus foi feito antes. Mas concordo contigo: esses esquemas narrativos, como você diz, são oriundos de um cinema dominante que tem como uma de suas bases a vingança. O cinema clássico-narrativo está repleto disso. É por isso, também, que nós (“coitados”) torcemos por um torturador.

  3.  

    7 Outubro, 2007| 9:35 pm


     

    boa resenha, Aristeu. E também compartilho da perplexidade que lhe inspira a acertada cautela ao pensar as repercussões morais do filme. Parece que não podemos tratar mais esta questão sem achar que alguém tem que ser fuzilado, seja o traficante, o usuário ou o policial. Pelo que entendi, o que o filme retrata de mais interessante é o processo de marginalização psicológica do policial. A narração em off pelo Capitão Nascimento, importantíssima, por sinal, mostra o ódio que o profissional de segurança com um mínimo de empenho alimenta hoje em relação ao cidadão em geral e às instituições. Matias talvez não volte à faculdade, talvez não acredite mais nos direitos humanos. O que ele viu foi seu amigo ser morto em condições covardes e o que ele viveu foi ser discriminado só por ser policial. A opção que lhe resta é a que é oferecida pelo Capitão Nascimento: se todos os odeiam, ainda resta lutar pelo que é certo, nem que isso implique passar por cima de quem não segue com firmeza o que é o certo. Vêm, daí, a ênfase na força e na resistência, símbolos da retidão moral que estes homens não encontram nas instituições burocráticas, nos colegas corruptos, no cidadão condencendente com o crime. A estes homens falta compreensão, tolerância e respeito por parte da sociedade, e por isso se agarram a uma noção de justiça brutal mas curiosamente autêntica.

    Tropa de Elite mostra uma polícia que a gente não quer ter. Mas a questão que me ronda é até que ponto nós merecemos uma polícia melhor, nós, que até o presente momento, ainda não nos decidimos até que ponto estamos dispostos a reconhecer a legitimidade de coisas como lei e polícia.

  4.  

    20 Outubro, 2007| 9:53 am


     

    Sua resenha toca no ponto certo quando aponta que o foco da voz do filme é a do Capitão Nascimento e isso diz tudo sobre qual é o sentido político desse discurso. O lance é que o filme é bem feito. é um filme no qual as coisas estão no lugar em um padrão do cinemão narrativo. Então foi isso que me fez pensar que o filme é bom. ele é bom porque (vamos ser aristotélicos) cumpre a função para o qual foi gerado. Ou seja, ele impressiona o público, ele instiga, ele produz emoção e faz o público sair do cinema querendo gritar: Caveira! Caveira”.
    lógico que quem tem um olhar crítico e técnico pode encontrar falhas nesse discurso, mas quem tem essa educação cinematográfica?
    agora o fato do filme sere bom, não implica que ele não seja perigoso.
    é um filme comprometido com o discurso do seu protagonista. Lembra do Kubrick? Lembra de como ele destroça seus protagonistas, de como ele se impõe como narrador silencioso aos seus personagens?
    Padilha ficou refém do Capitão Nascimento. Frankenstein destruiu Mary Shelley, eh eh.
    e Wagner Moura botou pra foder.

  5.  

    20 Outubro, 2007| 10:03 am


     

    Pablo, interessante a tua leitura. Mas só uma coisa: esse discurso que o que atinge o público é bom é um tanto torto. Assim vamos ter que engolir muita coisa por aí. Caveira. ehehehe….

  6.  
    Clóvis Luz

    23 Outubro, 2007| 10:38 am


     

    Não tenho a cultura ou o conhecimento cinematográfico dos senhores aí de cima, porém, como um “coitado” qualquer, sou consciente do poder que filmes como Tropa de Elite exercem sobre as pessoas e não tenho nenhuma ilusão quanto à extensão e o alcance: restringe-se ao nível psicológico, menos como determinante de mudanças nas disposições mentais desde antes presentes e mais como conformação, ou ressonância de sentimentos agasalhados em nossas mentes em relação à violência, ao crime e ao desejo de justiça (e de vigança, por tabela). Filmes que “retratam” a realidade, com as devidas cautelas, podem ser comparados às tragédias gregas, que permtiam à plateia a purgação de seus sofrimentos a partir de sua identificação com os sentimentos dos personangens. Essa catarse pela qual nós, comuns cidadãos, sentimos desejo de ver os criminosos pagando pelos seus crimes (crimes objetivos merecem punições objetivas), não importando a forma que essas punições assumam, se legais ou arbitrárias, apenas reforçam a convicção de que aqueles que atribuem a violência e a criminalidade unicamente às mazelas sociais, advogando a tese segundo a qual se houvesse justiça social não haveria criminalidade, são os ingênuos que abraçam complexas teorias de conteúdo marxista para negar o óbvio: o homem não tem como curar sua ganância, perversidade e sede de possuir aquilo que o “sistema” lhe nega. Resumindo, nós somos avessos a todo e qualquer princípio de legalidade, limite, autoridade e moralidade. Somos contrários à mínima coerção, quando ela é necessária para impor limites a nossos mais baixos instintos. Sexo, dinheiro, poder, conhecimento, não há quem seja capaz de fazer qualquer coisa para ter essas coisas? Quem puder responder, estou ansioso para ouvir…

  7.  
    Fernando Alves

    18 Fevereiro, 2008| 11:22 pm


     

    Vejamos bem amigos!! Até o filme ter sido premiado ( o que não foi nada premeditado da minha parte), preferi ficar calado e não me manifestar no blog. Porém, concordo em muitos pontos com as opiniões de François e Pablo Capistrano. Ora, não vamos dizer que o filme foi premiado em Berlim pelo sensacionalismo de possível filme pseudo-denúncia e ´por isso mesmo ter encantado Costa Gravas. Não sejamos tão simplistas!!! Já disse em conversas com o amigo Aristeu que o filme é por bom por ser coerente com sua proposta global de produção artística, ou seja: de ser um bom filme de ação. Filme com roteiro, pano de fundo atinente a um recorte significativo da realidade social e com um apelo popular inquestionável, face as questões que aborda, que não são novas, mas, na verdade, são questão de estilo no cinema nacional (vide produções como LUCIO FLÁVIO na década de 70 ou CIDADE DE DEUS). Portanto, não me falem, precipitadamente, em discurso fascista, pois isso não me pareceu, em nenhum momento a proposta do filme. Se em BIRTH OF NATION do Grifith, no começo do século XX, a apologia do racismo e da Ku-Klus Khan não foi impeditivo para a película ser considerada até hoje um marco na história do cinema e uma obra-prima cinematográfica, quanto mais os dizeres do Capitão Nascimento, que refletem muito mais partículas de um roteiro muito bem escrito, que revela uma estória bem costurada, que narra, enfim, um pedaço do cotidiano das grandes urbes desse país, envolvidas com a violência. É engraçado ver muitos acadêmicos taxarem José Padilha de fascista, quando ele mesmo foi taxado de defensor de criminosos, ao expor tão e simplementes no seu documentário anterior: Ônibus 157, a história da vida do criminoso Sandro do Nascimento, responsável (junto com a polícia carioca), dos trágicos acontecimentos reais que deram origem ao filme. Ora, se Padilha é responsável por um filme fascista, fomentador de estereótipos, então, Claudio de Assis, responsável por AMARELO MANGA ou BAIXIO DAS BESTAS é fomentador da prostituição infantil ou da desvalorização da mulher, no momento em que nas estórias apresentadaas nos dois filmes, o que se revela são mulheres pobres, maltrapilhas e sem opção que acabam por mostrar, pela sexualidade, o máximo de suas possibilidades para conseguir não apenas o sustento, mas também o êxito sobre seus algozes. Bom: usando argumentos tão simplistas quanto o amarelo de uma cerveja em mesa de bar, podemos dizer: TROPA DE ELITE é fascista e BAIXIO DAS BESTAS é filme que promove a prostituição!! Que tal?? Será por aí o argumento? Ou será que devemos ser mais cuidadosos em nossa avaliação?? Bom!! Quem quiser que leia e traça seu próprio comentário. O papel democrático de um fórum de discussão é pra isso mesmo.

  8.  

    19 Fevereiro, 2008| 9:06 am


     

    Fernando, é preciso mais critério nas comparações. Por exemplo, comparar o filme do Grifith ao de Padilha, não dá muito certo. Isso porque, embora o filme do Grifith seja reamlente um filme racista, ele é um marco do cinema. Tropa de Elite não o é. Explico: Grifith criou muito da linguagem do cinema. Foi Grifith quem inventou o corte em movimento, por exemplo. Grifith é base do cinema clássico-narrativo, cartilha sob a qual o Tropa de Elite comunga. O que quero dizer é que em termos de linguagem o Tropa de Elite não é nada além de apenas mais um filme. Ele não inova em nada nesse quesito. Mas isso nem vem ao caso, só falei disso por causa da tua comparação. O mérito de Tropa de Elite, se é que o há, está no seu discurso e no ineditismo da questão abordada. Então, acho que deva ser por aí que ele deva ser analisado. Sendo assim, é muito coerente analisar o seu discurso. O problema principal que vejo no filme, como explicito neste artigo, não é o fato dele mostrar torturas ou um personagem com uma índole um tanto torta. O problema é que ele usa das artimanhas do sr. Grifith, ou seja, da manipulação vigente no clássico-narrativo para fazer não apenas um discurso, mas para fazer a platéia comprá-lo como seu. Em nenhum momento o filme questiona as execuções feitas a mando pelo Capitão Nascimento. Pelo contrário. Quando se tenta alavancar alguma questão sobre isso – falo da cena em sala de aula, quando os universitários discutem as relações de poder – o que se vê são jovens estúpidos, com argumentos incompletos e risíveis. Mais uma vez repito: o mal que vejo em Tropa de Elite é que propaga um discurso tão vigente na população brasileira: que bandido bom é bandido morto. Isso é danoso.

    Um outro ponto que você tocou, e é bem interessante, é a comparação com o cinema de Cláudio Assis. Vejo diferenças aí, no entanto. Eu mesmo já pensei muito sobre isso. Lembro que na época de lançamento do Baixio das Bestas, muitos acusaram o filme de pedófilo. Mas a diferença está na tal construção do discurso fílmico. O que vejo em Baixio das Besta, e isso serve também para o Amarelo Manga, é que Cáudio Assis exacerba suas imagens na tentativa de chocar, mas em busca de uma denúncia social. Não só isso, numa tentativa de fazer o espectador não ficar passivo frente aquilo tudo. Aí está outro grande diferencial, Cláudio Assis quer um espectador consciente e ativo, coisa que Tropa de Elite, em momento algum o faz ou tenta. Parafraseando uma das inúmeras críticas recentes ao filme, o que Tropa de Elite faz é alienar o espectador em prol de um policial psicopata.

  9.  
    Filipe Leal

    29 Fevereiro, 2008| 6:46 pm


     

    Tenho sono e meu português não está 100% agora, mas vou dizer algo sobre o que li. A idéia do filme é usar a linguagem cinematográfica com um narrador (mensagem subliminar, por que não dizer?) para fazer o público torcer por um “policial psicopata”. A um, porque “policial psicopata” é uma rotulação simplista demais para um protagonista que, principalmente para um filme de ação, é bastante profundo.

    A dois, porque o discurso defendido pelo capitão, correto ou não, não é de uma pessoa idiota ou ignorante. Não é idiota porque busca coerência em seu sistema de justiça pessoal e não é ignorante porque é perceptível que essa coerência é algo sistematizada, metodologizada, por assim dizer… E só porque o narrador principal pensa assim, não quer dizer que devamos pensar assim também. Tendo em vista a parte do histórico do autor sobre a qual tenho conhecimento (Ônibus 174) acho que não deve ser considerada como totalmente absurda a possibilidade de o autor estar pretendendo que o discurso do personagem seja criticado. Não que eu ache que ele seja um idiota, também, usando o recurso do narrador-personagem de uma forma um tanto diferente. Caveira!

  10.  
    portuguesa

    25 Julho, 2008| 4:31 pm


     

    Sou portuguesa e vivo em Lisboa, só agora vi o Tropa de Elite, filme que estreou faz muito pouco em Portugal e por isso, este meu atraso gigante em relação aos vossos comentários.

    Para mim, enquanto espectadora e estrangeira, alheia à vossa realidade e depois de já ter visto o Cidade de Deus faz muito tempo, tenho que confessar que fiquei impressionada com o filme e com a realidade que diz retractar.

    Ao ler os vossos comentários fico contente pela desconstrução da sua narrativa e linguagem formal, é verdade o realizador ficou refém do Capitão e da excelente interpretação de Moura, grande escola de actores brazileiros sem dúvida.

    Fiquei impressionada com o filme, mas é bom que este tenha suscitado discussão no Brasil e mais tarde no resto do mundo como aconteceu em Portugal.

    Não considero o filme fascista, mas sim uma lavagem cerebral e uma legitimação da violência pela violência, no entanto, parece-me que é essencial que esta visão das coisas existe numa sociedade e num mundo plural. No inicio considero que existe quase uma vontade do realizador em estabelecer dois mundos de opostos e alimentar assim a narrativa com duas faces da moeda, a polícia na favela e a discussão burguesa e intelectual nas salas de aula, mas à medida que o filme caminha, esse grupo oposto esvazia-se de significado e vai sendo suplantado pela violência policial e da máxima o fim justifica o meio.

    Errado, o fim não justifica o meio e nem pode. Mesmo que o filme nos queira passar a imagem que o Rio de Janeiro está em guerra, não justifica, porque a violência gera violência e porque acima de tudo, ninguém é incorruptível e em guerra todos têm o seu preço, o ser-humano por uma razão ou por outra, acaba sempre por se vender, nem que seja para ter paz no meio de tanto túmulo.

    Como pessoa, lamento profundamente que o mundo esteja tão mergulhado no caos e na violência e lamento ainda mais que tudo tenha um preço, tal como é retractado em Tropa de Elite.

    Relativamente à classe média, da qual faço parte, lamento que esteja tão adormecida e entregue ao consumo escapista que nos caracteriza, não só no Brasil, é assim em todo o mundo.

    Tropa de Elite é um murro no estômago para a classe média, que se acha estupidamente protegida pelo seu poder de compra e pelos seus soldados implacáveis, há smp alguém que fará o trabalho sujo por si, visto que nós não podemos sujar as mãos de manicure e talvez, nisso tropa de elite seja essencial para que consigamos perceber que um dia os bopes deste mundo perseguem bandidos, mas amanhã e num futuro bem próximo, podem-nos perseguir a nós porque fumamos baseado ou porque discordamos da sua forma de actuação.

    Este filme mostra o quanto vivemos num mundo repressivo, que se controla a si próprio e se reprime às camadas, num equilíbrio periclitantemente sórdido e vazio.

    No que ao cinema brasileiro toca como espectadora assídua do mesmo ou do que pelo menos cá chega, só tenho que dizer que está entre os melhores do mundo.

    Muitas e não raras vezes violento, mas com coragem de lançar discussões e revelar hipocrisias.

  11.  

    3 Agosto, 2008| 4:28 pm


     

    tropa de elite fala o obvio e não propõe uma superação e outra a estetica dele es totalmente holiudiana desses tempos banais blockbuster ou melhor um embuste só
    o cinema brasileiro não precisa de filmes como esse pra se afirmar

  12.  

    8 Setembro, 2008| 4:23 pm


     

    reitero o meu comentário feito em agosto digo q TROPA DE ELITE de josé padilha não tem nada pra se construir e contribuir no sentido a linha evolutiva do cinema brasileiro temos eq tomar cuidado q isso e propaganda contra a democracia q a tanto custo conquistamos fora a estetica holiudiana de nossas telas

  13.  
    Cecilia Saraiva

    1 Outubro, 2008| 6:47 pm


     

    Acredito sim que Tropa de Elite seja fascista, por diversas razões implícitas e explícitas, no filme, e até nos comentários que foram postados acima. É, como escreve Aristeu, baseado numa estética de ódio, se é que isso pode ser chamado de estética. O problema é que o filme quer vender idéias: a polícia como instituição comum está falida porque é corrupta, então a sociedade precisa mesmo é de super-homens truculentos que estão acima da lei, incorruptíveis, etc, mas que vão fazer o trabalho custe o que custar. Acusa a classe média com um discurso barato por causa do uso de drogas, que financia o crime, deixando outras discussões (mais adultas e menos caretas – porque, diga-se de passagem, é um filme caretão – como a descriminalização de drogas, de fora… muito pelo contrário, isso está fora de questão!). E o pior: uma peça de propaganda que faz apologia a uma instituição torta, que claramente fere os direitos humanos e está mal definida enquanto instituição pública… o poder do BOPE não é legítimo, está longe disso! Que constituição ou legislação legitima a possibilidade de um grupo treinado entrar na favela e fazer o diabo? Cadê a Anistia Internacional? Nessa hora só existe a paparicação do poder e da celebridade (o ator Wagner Moura, que aliás é sim um bom ator, virou superstar por causa do papel durão… uma revista colocou na capa o seguinte:” WM é o cara” – tenho impressão que a violência e o sangue frio tem sex appeal…), da autoridade bruta. Quem está ao lado dos favelados? Do povo que tem que ser humilhado e passar pela dor, a opressão do aparelho repressor do Estado e da truculência abissal dos traficantes que comandam as comunidades? Que instituição legítima/ilegítima pode defender o mínimo para eles? É mesmo um elogio à ditadura. Os guerrilheiros/presos políticos eram (são) “terroristas”, perigo para o Estado e a boa sociedade… não há justiça comum pra eles (não só aqui, vejam Guantánamo), em nome da defesa urgente contra o caos, vale tudo… estado de sítio, primeira previdência das ditaduras. Cito os envolvidos com guerrilha de forma meio deslocada, mas a atitude das autoridades diante de grupos ideológicos e traficantes truculentos é a mesma. O filme deixa isso claro como uma “boa idéia”, o que é “certo” e “errado”. Uma cena me chamou muita atenção: os bandidos entram na ONG no momento em que um casal está quase tendo relações (o que se torna uma forma de ridicularizar novamente os estudantes, ou melhor, a classe média que está ali representada por eles). Eles são torturados e assassinados pelos bandidos, e o BOPE do capitão Nascimento nem se interessa, porque eles são “classe média de universitários maconheiros”… assim o filme careta, sem qualquer profundidade, acusa, aponta o dedo contra as pessoas, e ainda indiretamente tenta oferecer uma explicação; os jovens assassinados “mereceram” o tal fim, porque fumam maconha, mas supostamente para aliviar a consciência, trabalham numa ONG dentro da favela. Isso está claro, ninguém diz, mas não precisa ser um gênio para ver. O BOPE se mexe quando um dos “heróis de preto” é assassinado, e aí vale tudo: torturar criança, mulher do traficante, etc. Mulher de bandido? Então não presta. Põe no saco.
    A questão é que o filme não tenta ser imparcial, e se tenta, o tiro sai pela culatra. Que discusão há ali? Há gente apontando o dedo na cara das pessoas, da audiência. Para muitas pessoas, percebi que este filme é um exercício de autoexpiação… como confessar-se na igreja. Li em algum lugar alguém dizer que Tropa lembra “Uma Primavera para Hitler”, ou melhor, “The Producers”. Os produtores querem fazer um musical que seja uma apologia a Hitler, e acaba saindo uma sátira das melhores. Eu diria que Tropa de Elite é “The Producers” às avessas. Quer supor-se uma crítica, ou um questionamento da polícia, do BOPE, e da classe média, mas sai um acusador e moralista supercareta e apologético do macho durão de preto e incorruptível que faz seu trabalho, custe o que custar.

  14.  
    juliana

    6 Novembro, 2008| 12:10 pm


     

    eu gostei muito do filme penso ate em seguir carreira militar gostei do filme e acabei comprando o livro q tabm e muito bom e naun tem nds a ver cum o filme

  15.  
    Marco

    7 Dezembro, 2008| 4:33 pm


     

    Moro na Franca e vi o filme. Aqui na Europa ficaram chocados com a forma crua do filme e o seu enredo. Afinal, eles possuem uma realidade diferente.
    Vejo o filme como um filme de acao violento e que retrata a realidade de um ser humano que é jogado em um trabalho aonde tem que sobreviver sempre. Suas opcoes sao poucas. Ele nao pode dialogar, pois o dialogo nao resolve. E essa é a realidade de partes do Brasil, infelizmente. Aqui os estrangeiros me perguntaram se o Brasil é assim pois so conhecem RJ, Bahia. Ninguem conhece o sul do Brasil,universidades boas de SP…nao temos uma imagem bacana. Somos ainda futebol,sexo, praia pro exterior.

    O maior merito de tropa de elite é ser cru como muitos filmes brasileiros. Gomorra na Italia tambe foi. Demontra a realidade aonde vemos usuarios que financiam o trafico, isso é fato. Demonstra a hipocrisia de discussoes inuteis em uma sala longe da realidade. Peca por generalizar isso, mas tem desde as ONGS, usuarios universitarios de drogas de um modo romantico, policiais corruptos e policiais que sao idealistas mas sao forcados a serem selvagens pela selva da realidade.Isso tudo tem seu fundo de verdade que vem desde a colonizacao do Brasil, aonde o descontrole foi tremendo e hoje pagamos as contas por sermos tao desorgarnizados. Infelizmente o mundo esta sendo cada vez mais cruel,assim como citou a espectadora de Portugal.

    Nao concordo de chamar o filme de fascista. E real de modo intenso pois acredito que nos morros seja assim. Nao podemo ser idealistas e cegos a um ponto de negar um filme que demostra a verdade crua.A violencia foi banalizada sim infelizmente mas alguem tem uma outra opçao?

    Recomendo o documentario PQD aonde demonstram a ma formacao dos nossos soldados.

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