Noite de Sexta, Manhã de Sábado, de Kleber Mendonça Filho, 2006, Brasil. Curta Hours Concours.
O celular, apesar de totalmente incorporado à vida cotidiana, aparece pouco nos cinemas fora de um papel óbvio. Nos longas está em alguns nichos obrigatórios: filmes policiais, filmes adolescentes. E em apenas alguns deles, como no lindo Em Busca da Vida, de Jia Zhang-Ke, é que assume um papel mais relevante, significativo. Em curtas, ao menos nacionais, aparece praticamente apenas nos tais filmes adolescentes. Noite de Sexta… não deixa de ser um desses, possui um universo mas adolescente, ou jovem ao menos, dada a idade dos protagonistas, mas trata das coisas de maneira mais madura, fora do contexto Malhação da coisa. É importante analisar a diferença de tratamento que Kleber Mendonça Filho e Esmir Filho (em Alguma Coisa Assim) dão ao mesmo universo, à mesma questão da procura, da solidão. Isso fica pra outra hora, ou para assim que eu assistir o novo de Esmir Filho, Saliva.
O enredo de Noite… é simples, de fato. Um rapaz sozinho no Brasil, à noite. Ele está numa festa, conversa com uma menina, bebe. A conversa, aliás, desconfortavelmente traduzida em legendas, já que nada se ouve, dá uma sensação clara de que o diálogo será importante no filme. Ele sai da festa e para num posto de gasolina. De lá, faz um telefonema. Na Rússia (era Rússia mesmo?) uma moça, de manhã. Eles já se conhecem, logo se percebe que são um casal, ou foram ao menos. Conversam sobre banalidades. Resolvem então que ambos irão à praia, cada um no seu país, para que possam estar um pouco mais juntos.
O idéia de criar um curta-metragem quase inteiramente tomado por um diálogo ao telefone pode parecer tediosa. Algumas escolhas de Kleber, porém, tornam tudo mais interessante. Apesar da cópia em 35mm, o filme foi feito com uma câmera de vídeo amadora (Hi8 talvez? MiniDV no máximo!) , na mão, tremida e “feia”. Um registro já característico dessa nova geração de filmes que se pretendem “reais”: o digital cheio de ruído, sujo, se torna hoje a representação de linguagem mais próxima do documental, do real, daquilo que está no filme porque existiu. Uma idéia muito propagada pelas câmeras fotográficas digitais (que também filmam) e pelos próprios celulares.
É nessa estética do tosco que Kleber coloca seu filme. Não seria nada tão impactante não fosse a montagem e a edição de som consequência dessa montagem. Noite de Sexta, Manhã de Sábado é montado exatamente como seu título. Um plano e contra-plano dessa conversa, ele cá, ela lá, mas sempre com um brutal corte no som, em momentos às vezes pouco usuais. Esse pulo sonoro que se dá em todo o filme é o que dá a separação clara dos dois. É ele também, que cria a união quando ambos estão na praia e os sons se parecem tanto. Não é o sol, não são as frases, faladas ou cortadas. É o som. O registro mais inconsciente de que se está em um lugar, e não em outro. Talvez aquele que mais remeta à memória, junto com o olfato. E nesse cochicho gritado do celular, nessa distância longínqua das ondas do telefone, nessa falsa proximidade do sol que nasce, o som da rebentação do mar consegue ser romântico mais uma vez.
Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2007