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O Expresso Darjeeling


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Publicado em 30 de Setembro de 2007

Francis, Jack e Pete viajam pela Índia: pai onipresente.

Francis, Jack e Pete viajam pela Índia: pai onipresente.

O Expresso Darjeeling (The Darjeeling Limited), de Wes Anderson, 2007, EUA. Mostra Panorama.

Os irmãos Francis, Pete e Jack não se falam há um ano, desde o enterro do pai. Para reaproximá-los, Francis, o mais velho – desfigurado por acidente de moto –, convida os demais para viagem espiritual através da Índia, omitindo que o propósito verdadeiro consiste em reencontrar a mão ausente, que se tornou freira e vive refugiada em convento. Com encanto e doçura, Wes Anderson volta novamente sua objetiva para a família, e reflete acerca do peso que a herança dos pais exerce sobre os filhos, no que talvez seja o melhor filme de sua carreira.

O Expresso Darjeeling, na verdade, está dividido em duas partes. Na primeira, curta-metragem que antecede a “atração principal”, Jack está às voltas com a namorada em hotel de Paris, ode se hospeda há dias ou meses. Na segunda, as relações conflituosas dos irmãos no trem “Darjeeling Limited”. Assim, se Robert Rodriguez e Quentin Tarantino recuperam, com Grindhouse (cujos episódios, Planeta Terror e À Prova de Morte, apresentam-se em separado fora dos EUA), a estrutura das antigas matinês dos filmes B, na qual duas produções de baixíssimo orçamento eram exibidas em seqüência, entrecortadas por trailers diversos, Wes Anderson retoma a experiência que une, na mesma sessão, curta e longa-metragem (que devem passar obrigatoriamente juntos, informam os créditos de abertura).

O curta-metragem O Apartamento, que antecede, mas também integra, O Expresso Darjeeling, homenageia a nouvelle vague (na medida em que desenvolve romanticamente o encontro amoroso de dois solitários em hotel coloridíssimo de Paris), enquanto o longa principal faz bela síntese do cinema indiano, e do que o Ocidente registra por lá, desde a trilha sonora extraída dos filmes de Satyajit Ray – A Canção da Estrada, A Sala de Música, O Invencível, por exemplo –, até a deliciosa primeira seqüência, que mostra executivo (ponta silenciosa de Bill Murray) apressado para tomar o trem. Em poucos minutos, Wes Anderson trabalha a imagem do estrangeiro no país desconhecido, a desorientação que o caótico trânsito urbano proporciona, os cortes bruscos e os saltos entre os planos, comuns às produções de Bollywood, e os zooms-in e zooms-out que perdem, procuram, reenquadram e transformam os objetos de interesse ao olhar durante a cena.

Bill Murray representa indiretamente o pai ausente que, embora morto, continua atormentando as memórias dos filhos. Francis, Pete e Jack não se entendem e não confiam um no outro, como provam as seqüências em que, de dois em dois – sempre com a exclusão proposital do terceiro –, contam indiscrições e segredos entre si: Pete viajou sem dizer à esposa grávida, Jack ouve as mensagens da secretária eletrônica de sua ex-namorada, Francis se jogou com a moto contra a parede. Anderson, na prática, utiliza as figuras do discurso: quem fala, com quem se fala e de quem se fala, posições que o trio alterna ao longo da narrativa. Apesar de todos concordarem com as propostas de Francis, sabe-se que o fazem por força do hábito, pois apenas repetem o comportamento que possuíam com a mãe, da mesma forma que a mania do primogênito em ditar ordens vem da herança materna.

Os irmãos procuram a mãe, repetem seus atos, não aceitam que estivesse ausente no funeral do ex-marido. No entanto, o peso mais traumático aos filhos, que os impede de viver plenamente, está na lembrança onipresente do pai. Francis alega que lhe conhecia as vontades, Pete toma para si objetos deixados por ele e Jack lamenta que o pai não tenha aberto o livro que lhe escreveu de presente (com personagens que insiste serem fictícios, embora os irmãos o desmintam, pois se baseiam em fatos reais). A viagem espiritual, que inicialmente fracassa em virtude do apego de Francis a rituais religiosos para turista ver, ganha novo significado quando, expulsos do trem, salvam duas crianças de se afogarem no rio. Outra morre, porém o contato que os estrangeiros (sobretudo entre eles mesmos) travam com os habitantes da vila indiana lhes permite que saiam do circuito mesquinho das desavenças pessoais e familiares e que conheçam a dor, o sofrimento, a amizade e a beleza que há no outro, no desconhecido. Abrem-se os olhos e de repente o mundo existe, onde línguas e culturas diferentes se entendem e se gostam com mútua generosidade.

Generoso e tocante são os adjetivos que definem O Expresso Darjeeling. Para seguir adiante, é necessário que se esqueça a imagem paterna. Há metáfora mais simples e poderosa do que largar as malas que carregam durante toda a viagem, as quais pertenciam ao pai, a fim de alcançar o trem em movimento? Os problemas, claro, não desaparecem – Francis está desfigurado, Jack não sabe se aceita reencontrar a ex-namorada na Itália e Pete se sente desconfortável com o filho prestes a nascer –, mas a jornada dos três continua.

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2007

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    1 Commentário sobre 'O Expresso Darjeeling'

    1.  
      serint

      24 Maio, 2008| 11:38 am


       

      Esse foi um dos melhores filmes que já vi nos últimos tempos e sua crítica está simplesmente divina!!! (em compensação, só porque está na moda não se tomar partido em nada – coisa muito louvável em período onde notadamente só assim se fazia, não há porque se atirar ao lixo tão rapidamente outros olhares que se expressam abertamente a respeito do que vêem – o que tb poderia ser considerado um ato de coragem – não gostei nada de seu olhar sobre Loach porque se vc tem razão ao dizer que os indivíduos são os donos de suas decisões, por outro lado sabemos também do que a propaganda e a pressão social são capazes de (des)fazer a um indivíduo… olhar a beleza e as possibilidades que se abrem, sempre, ser ingênuos… talvez porque vocês sejam a própria geração dessa mitificação abusiva do “poder do indivíduo” ,o que seria muito bom se realmente esse “poder” fosse praticado… mas só vejo ser praticado (em sua gde maioria, of course existem exceções allways…) para comprar carros, celulares, competir de forma bastante agressiva e mesquinha com seus semelhantes etc e tal…

      Mas – sorry pelas digressões – gostei mesmo muito DESSA sua crítica aqui….

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