
Floresta dos Lamentos (Mogari no mori), de Naomi Kawase, 2007, Japão. Mostra Panorama
Importantíssimo de dizer antes de qualquer coisa: dormi durante os 15 (ou 20?) primeiros minutos de Floresta dos Lamentos. Havia acabado de sair de Paranoid Park e Lady Chatterley, acabei não resistindo à confortável poltrona do Espaço de Cinema.
Eu tenho uma teoria sobre dormir no cinema, uma idéia de que cochilar por algum tempo num filme (nesse sono em estado de alerta) acaba colocando o espectador numa espécie de fruição quase hipnótica. As nuances das 3ª ou 4ª camadas do filme (às vezes até sutis demais para “os acordados”) entram despreocupadas pela mente livre do dorminhoco. Ao acordar, então, a realidade do mundo exterior, que havia acompanhado o sujeito desde a entrada do cinema, a bilheteria, a fila, as escadas, o apagar das luzes, as vinhetas; essa realidade é completamente substituída pela fábula. Se esse é um processo comum quando se dá ao longo de uma projeção, ele também ocorre, talvez de maneira mais abrupta e impactante, ao se acordar no meio de um filme. Adicione, a esse impacto de despertar, aquela velha técnica de induzir desejos e sentimentos na pessoa durante o sono, aquela velha história, fantasiosa talvez, de que ao cochichar algo ao pé do ouvido de uma pessoa dormindo ela aceitará as instruções e criará desejos, talvez até possa curar hábitos e doenças.
Dito isso tudo, há ainda que percebermos que há filmes que exploram brutalmente esse lado sensorial, essa camada inferior e imperceptível de tudo que nos cerca. Filmes esses nos que chegam na lucidez onírica que só a
arte pode alcançar. Foi exatamente assim que assisti Mal dos Trópicos, de Apichatpong Weerasethakul, há dois anos, dormindo e acordando no meio da floresta tailandesa. E ao acordar em Floresta dos Lamentos, no exato momento em que Shigeki e Machiko brincam de se esconder no jardim (foto), a sensação foi estrondosa. Primeiro porque eu demorei alguns minutos a compreender que Shigeki tinha problemas mentais; segundo pela beleza alucinante dos planos; terceiro, pela linda e charmosa Machiko, e sua jovialidade conquistadora.
Quando Machiko vai procurar ajuda, após ter batido o carro, parecia óbvio que Shigeki fugiria. Reitero que não vi os primeiros minutos do filme e, portanto, não tinha a informação de que Machiko havia perdido um filho. Mas ainda assim a sensação estava lá, internalizada. Ele enfim foge. Ela corre atrás, desesperada. Quando finalmente o encontra, Shigeki foge como criança, cai, come melancia e dá melancia para Machiko, numa belíssima e tocante sequência.
Pulo algumas coisas. Os dois se perdem na floresta, enquanto Shigeki procura algum lugar ou pessoa para mim indefinido: Mako. Chove. Shigeki tenta atravessar uma cachoeira e Machiko grita para que ele não vá. Há então um plano (talvez a imaginação de Machiko?) em que a água da chuva desce torrencialmente pela corredeira. Ela então grita alucinadamente. Nesse momento parei de pensar qualquer coisa que pudesse, e senti apenas.
Senti algo extremamente existencialista, desses que enchem o peito de buracos bem vazios. Desesperado como Machiko, percebi que aquelas pessoas que eu via perdidas na floresta realmente existiam, e não só no filme. E essa latência (percebo que esta se torna uma palavra cada vez mais importante pra mim, no sentido “s. f.- estado do que é latente; latente - Biol. - vida: estado de um órgão ou de um organismo que, estando vivo, não manifesta os sintomas próprios da vida) presente na superfície de tudo aquilo, se introjetou no mais íntimo da própria realização cinematográfica contemporânea que eu percebia no momento. Vi então, que o cinema contemporâneo tem essa característica que eu nunca havia visto dessa maneira, apesar de parecer óbvio: filmes contemporâneos são feitos com pessoas que existem naquele momento, neste momento em que estamos, nessa história que criamos e que faremos parte. São assim, registros palpáveis de que sim, houve vida durante o século XXI, choraram essas pessoas, gritaram e se abraçaram, e sentiram tudo isso. Em 2 ou 3 ou 20 mil anos, passados do nosso tempo pra frente, essa civilização antiga que somos nós hoje terá sumido há muito. Mas hoje, hoje estamos vivos. Machiko e Shigeki se abraçam na tela e todo o carinho do planeta está com eles, toda a cumplicidade se transmite ali, visível, perceptível, óbvia - é tocante ver, depois, que Machiko e Shigeki são os nomes verdadeiros dos atores que os interpretam. Na sequência seguinte, os dois armam uma fogueira. Para minha surpresa, eu que nem sabia do que se tratava o filme e apenas o sentia, conversam sobre a vida. E, à luz da primeira invenção da civilização do homem, o fogo, repetem para si: “Estamos vivos, estamos vivos”.
Adentram a floresta, abraçam uma árvore de mil anos, talvez representante dessa civilização antiga, desse outrora, e também símbolo de um porvir de mil anos. Logo depois encontram o que procuravam. Não sei até agora o que era o tal Mako, e me recuso a saber. Não importa. Eles se ajoelham perante o lugar quase sagrado. Shigeki deposita uma quantidade de livros com os últimos anos estampados em suas capas, talvez um registro dele próprio acerca do passar dos anos, do período último de sua vida. Ele abre um pacote e, sem sequer imaginar como, eu sabia de antemão que se tratava de uma caixinha de música (lembrei então de um flash que vi entre meu cochilo: uma sequência em que ambos tocavam uma linda melodia ao piano). Machiko gira a caixinha de música enquanto Shigeki cava um buraco onde irá dormir. Ela, chorando, aponta a caixinha para os céus, ainda ao som da triste melodia do piano. Merecendo talvez o abraço mais fraterno que já se deu em algum momento nesse mundo, Machiko olha para o céu com sua caixinha e parece dizer: “Deus, tira-me o desespero. Me redime, que eu estou sim, viva”.

