
Marion Cotillard se transforma em Edith Piaf.
Piaf – Um Hino ao Amor (La Môme), de Olivier Dahan, 2007, França / Reino Unido / República Tcheca). Mostra Panorama.
Superprodução histórica que narra 45 anos da vida de Edith Piaf – de quando foi abandonada pela mãe e criada com a avó em prostíbulo, em 1918, até sua morte em Grosse, em 1963, com o fígado e a aparência totalmente destruídos pelo álcool e pelas drogas –, a cinebiografia de Olivier Dahan trafega na perigosa estrada que mistura formas e estilos: ao mesmo tempo em que adota narrativa não-linear, que fraciona o tempo a la Cidadão Kane e que funde o discurso direto dos acontecimentos com o discurso indireto livre das percepções que a heroína tem sobre eles, Piaf – Um Hino ao Amor abusa do melodrama rasgado e do visual hollywoodiano.
Dahan filma em cinemascope, trabalha com música hiper-expressiva onipresente, cuida dos mínimos detalhes da luxuosa reconstituição de época, como também não hesita em levar as interpretações de seus atores ao limite máximo – personagens sempre exacerbados e com sentimentos à flor da pele, intensos.
Piaf – bem defendida por Marion Cotillard – é a menina pobre e de saúde frágil, cujos olhos e voz expressam a alma de Paris: ela promove a ligação direta entre os ricos teatros e salas de jantar da burguesia francesa e os bares do submundo, repletos de cafetões, larápios e escroques da pior espécie. Olivier Dahan se prende, sobretudo, nas tragédias pessoais que se abateram sobre Edith Piaf (a cegueira na infância, as mortes da filha e do produtor que a descobriu nas ruas, a perda do amante no desastre de avião), para culminar em sua canção mais famosa, que sintetiza a protagonista, na qual ela não se arrepende nada.
Por vezes fascinante, e outras tantas tedioso, Piaf – um Hino ao Amor possui o mérito de retratar sua heroína como animal selvagem e indomável, que teme mais a solidão que a morte e que busca o amor desenfreadamente.