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Juízo



Aristeu Araújo

Juízo é o segundo documentário de Maria Augusta Ramos. Seguindo uma linha mista entre cinema direto e docudrama, o filme acompanha a trajetória de alguns menores infratores. Grande parte do longa-metragem se passa em audiências da Vara da infância do Rio de Janeiro.

O filme tem algo de peculiar. Em todos os planos que aparecem os rostos dos menores, há na verdade uma encenação. Para não ser obrigada a distorcer a imagem com áreas fora de foco ou bolas pretas, a diretora preferiu contratar atores para representar os contraplanos dentro do documentário. Ou seja, todas as imagens em que vemos os infratores de costas, tratam-se de imagens reais. Quando a câmera troca de posição e vemos os rostos deles, há a intromissão da ficção, a presença dos atores.

No entanto, os diálogos foram escritos seguindo à risca as falas captadas no primeiro momento de filmagem, o do documentário.

Maria Agusta Ramos já havia trabalhado em seu filme anterior em uma linha parecida com essa de o Juízo. Em Justiça, também seguindo as premissas do cinema direto – ou seja, de um tipo de documentário que preza a não interferência e a penas a observação dos fatos -, ela filmou a trajetória de alguns prisioneiros, desde as primeiras audiências, até a prisão ou a liberdade posterior.

O problema é que o cinema direto muitas vezes não funciona. Muitas vezes o diretor, ou seus retratados, se vêm tentados a mexer em algo para melhor expressar suas idéias. No caso de Justiça, existem seqüências inteiras em que há um forte tom de encenação. E o problema, na verdade, é que o filme não assume isso.

Já em Juízo, ao contrário, a encenação é o seu forte. A diferença é que assumindo o que se modificou ou manipulou, há um grau maior de credibilidade. Além disso, é uma experimentação rara essa que vemos no filme.

A encenação assumida e apresentada no filme acaba confundindo o espectador. E isso não é ruim. Muito embora a sinopse deixe claro que apenas as imagens que poderia identificar os menores foram refeitas, durante toda a exibição ficamos nos indagando o que é e o que não é documentário. Isso acontece por algumas razões: primeiro porque os atores escolhidos estão, em geral, muito bem na representação. Ou seja, são quase anônimos.

Em quase toda a extensão do filme, é apenas uma juíza quem comanda as audiências. E ela é o inverso absoluto dos réus. Ela é uma atriz. Não, ela não foi contratada pelo filme para representar um papel. Ela é uma atriz porque o ritual que a cerca, a faz encenar o papel de juíza. E para ressaltar, é um papel cômico o dessa mulher. Tão cômico e tão sugestivo, que é possível que o espectador se pergunte se não leu a sinopse de alguma maneira errada. Será que o documentário não é focado nas crianças e todo o resto é ficção?

É muito provável que esteja aí a decisão de Maria Augusta Ramos de fazer esse jogo de encenação e documentário. Ao perceber o carisma que a juíza retratada tinha frente à câmera, ela optou por jogar com isso. De quebra ela vai ao limite do sistema do documentário e questiona quais são as relações exatas entre uma forma ou outra de filmar. E faz isso sem esquecer do real assunto que está ali sendo estudado, a grande problemática que é a violência, a exclusão social, o sistema judiciário lento e as ferramentas educacionais ineficazes.

O jogo de encenação ali não é apenas do filme com o público, mas de todo um aparato judiciário com a sociedade.

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Publicado em 29 de September de 2007


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