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Conversando sobre Conceição


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Publicado em 28 de Setembro de 2007

Daniel Caetano e Guilherme Sarmiento são dois dos diretores do longa-metragem Conceição – Autor Bom é Autor Morto. Eles se reuniram com a Revista Moviola para gravar esse Papo de Botequim. O lugar foi propício, um bar na Cinelândia, nas imediações do cine Odeon, ponto cult da cinefilia carioca. Conceição ficou conhecido por ser o primeiro longa-metragem de ficção feito em uma universidade. Na conversa, falamos sobre os problemas de se lançar em tal empreitada, sobre o mercado de distribuição no país, sobre pirataria e Tropa de Elite. Foi uma conversa boa. Abra uma cerveja e divirta-se aqui com a gente.

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J. P. Gondim: Vamos começar com o título do filme. Por que “Conceição”? Eu li o teu artigo no Segundo Caderno do GLOBO, Daniel, e li as idéias: “comos cês são”, “concessão”…

Daniel Caetano: A cerveja é Conceição, o cemitério é Conceição…Bom, na verdade, até por ser coletivo que tem esse nome, porque o subtítulo já indica uma história central, né? Mas a idéia do filme todo era coletiva, então tinha que ter a idéia de todo mundo; daí a gente pensou que um título devia ser uma coisa relativamente neutra, e que ao mesmo tempo desse uma certa sugestão, mas conservasse a neutralidade, no sentido de que não tá indicando nada de importante na história.

Guilherme Sarmiento: A explicação com o filme veio depois…

Daniel Caetano: Primeiro veio o nome, depois a gente sacou a ligação com o filme.

Aristeu Araújo: Me parece que o filme não tem rigor nenhum.

Daniel Caetano: Acho até que tem, mas ele se constrói sozinho.

Aristeu Araújo: Quando a gente vê o filme, a gente vê o rigor na montagem, parece que a criação, a roteirização dele foi uma coisa bem livre, o que, aliás, eu acho que é um dos pontos fortes do filme, que é a liberdade que ele passa, enquanto expressão. Acho que é uma das grandes coisas do filme, essa anarquia que ele tem, e que, hoje, no cinema nacional é muito aquém.

Guilherme Sarmiento: Há também a questão da gente tentar esse diálogo com o cinema popular. A gente buscou essa vertente dentro do cinema. Eu acho que Conceição é também um nome comum, né? Uma mulher chamada Conceição… inclusive a gente não quis botar a música do Cauby justamente pra deixar…

Fernando Secco: Não toca a música? Eu jurava que sim.

Daniel Caetano: Toca só no trailer. O Jards nunca tinha gravado antes.

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Guilherme Sarmiento: Inclusive aquela mulher que aparece nua ia se chamar Conceição

Daniel Caetano: Mas várias coisas no filme têm Conceição. A escola dos garotos é Conceição, a cerveja, o cemitério, mas, na verdade, nada é. O filme é o Conceição.

Fernando Secco: Isso é muito, de não ter essa coisa de explicar nada, de não ter nada a ver com o filme.

Daniel Caetano: Essa coisa do rigor, vou falar pra você que a montagem tenta manter esse rigor, mas, por outro lado, foi na montagem que a gente quebrou uma coisa do roteiro meio até cartesiana, que era tudo separado em blocos, era tudo certinho. Primeiro, o fugitivo, depois era o bar, depois tinha o cara pegando cerveja e a tevê, depois tinha o depoimento, e aí tinha uma história de ficção. Na montagem a gente deu essa mexida, pois tava certinho demais. Eu acho que, de repente, na filmagem mesmo, essa coisa que você diz que não tem tanto rigor… eu acho que na filmagem mesmo não teve tanto, no sentido de que tinha sempre uma liberdade de criação que faz com que o filme não seja inteiramente coerente naquilo que se chama de mise-em-scène, mas isso é legal.

Paulo Ricardo de Almeida: Todos os diretores escreveram o roteiro e todos os diretores dirigiam ao mesmo tempo, como é que foi o processo?

Daniel Caetano: Não. A gente juntou dez, 12 pessoas que deram muitas idéias, aí, depois, eu e Guilherme, nós sentamos e escrevemos. Algumas história a gente desenvolveu, nós dois; outras, foram dessa galera…

Guilherme Sarmiento: Nós terminamos o roteiro numa madrugada. A gente tinha 40 minutos, 45 minutos, por aí, do roteiro.

Daniel Caetano: Resolvemos fazer um longa.

Guilherme Sarmiento: Aí o (Sérgio) Santeiro, que na época era o diretor de departamento (da UFF)… eu não sei exatamente se foi num bar, ou se foi na sala dele…

Daniel Caetano: Não foi na sala

Guilherme Sarmiento: Eu acho que foi num bar, porque o Daniel não estava, eu acho que foi num bar, enfim…

(Risos)

Guilherme Sarmiento: Coisas do Conceição, né? Mas, enfim…ele falou: “pô, vocês têm um média, por que não fazem um longa”? Ele sempre falava assim: “o cinema nacional começou do zero. Agora é o ponto zero do cinema”

Aristeu Araújo: Isso foi em que ano?

Daniel Caetano: A gente começou a escrever o roteiro em 96.

Guilherme Sarmiento: 96, 97

Fernando Secco: Conceição é um filme da retomada? (rindo)

Daniel Caetano: Pergunta complicada…é um filme que responde às questões da retomada, sim..

Guilherme Sarmiento: Pós-retomada.

Daniel Caetano: A gente tava começando e tinha aquela caretice toda… Central do Brasil ainda não tinha sido feito..

Paulo Ricardo de Almeida: Central do Brasil é uma caretice!

Daniel Caetano: Você imagina, tava se estabelecendo um tipo de cinema no país a partir de O Quatrilho, a partir do O Que é Isso, Companheiro?, sabe? Aquela coisa de filme histórico, pesado. Eu me lembro de que quando a gente começou a fazer, a gente teve a idéia de botar na Lei do Audiovisual…imagina, “se botar na Lei do Audiovisual, ninguém vai dar dinheiro pro nosso filme, a gente vai chegar com um filme completamente desvairado, com um monte de diretores, vai pedir dinheiro pra fazer esse filme, os caras não vão dar”.

Paulo Ricardo de Almeida: Botaram em edital?

Daniel Caetano: A gente botou em cinco editais da Petrobrás, BNDES, Telemar, uns três do MinC, dois da Ancine…

(Risos)

Aristeu Araújo: Vocês queriam ganhar edital com o filme no qual o pai do menino vende cocô na feira? (Risos)

Guilherme Sarmiento: Ninguém acreditava que esse filme poderia sair, esse que é o problema, entendeu? A gente meio que foi contra a corrente, inclusive saíram pessoas que estavam dentro do projeto porque começaram a achar que era inviável fazer um longa-metragem dentro da universidade.

(…)

Daniel Caetano: A gente tentou fazer um retrato da nossa geração, né? Todos nós sentamos na mesa de bar e temos muitos projetos

Fernando Secco; Vocês falaram do Santeiro, de onde foi o projeto, eu tenho certeza de que foi na mesa do bar. Você sai da UFF e vai lá na Cantareira (em Niterói) e o Santeiro está ali bebendo uma cachaçinha excelente, aconselho inclusive a procurar. Já disse isso a ele. “Pô, Santeiro, aposto que se aprende mais no bar do que na sala de aula”, isso é bastante óbvio, na verdade.

J. P. Gondim: Na semana passada, eu estive com o Márcio Melges, que me disse: “as pessoas falavam da minha barriga, mas elas guardam muitos roteiros…

(Risos)

Daniel Caetano: Márcio Melges nos ajudou muito. Montamos tudo na moviola dele, com fiado. Eu ainda pagarei o Márcio. (falando para o gravador)

Aristeu Araújo: Uma das coisas do roteiro que a gente tava falando e acabou se perdendo é que acho que eu acho o Conceição bem rigoroso.

Daniel Caetano: Nem tanto, nem tanto…calma…

Guilherme Sarmiento: Se você pegar o roteiro do filme e se você pegar o filme pronto, você vai ver que não há muita diferença entre o que foi filmado e o que foi escrito.

Daniel Caetano: Isso é verdade. Tem muita coisa que se você for ver ta lá no roteiro.

Guilherme Sarmiento: A gente não teve muito tempo pra improvisar na filmagem, porque nós tínhamos pouco negativo. Era, sei lá, dois pra um, três pra um.

Fernando Secco: Uma das melhores cenas do filme é um improviso: o cara caindo da escada. Vamos combinar, aquilo é genial.

Daniel Caetano: Mas aquilo foi absolutamente sem querer, ninguém esperava que acontecesse.

Fernando Secco: Mas o Boom (Luiz Eduardo do Carmos) disse que tinha avisado. “Ele vai cair!”

Aristeu Araújo: E aquele cara sobreviveu?

Daniel Caetano: É o André, diretor do filme.

Guilherme Sarmiento: Tem três filhas.

Fernando Secco: Dizem inclusive que o plano dele pegando a cerveja do chão surgiu na hora.

Guilherme Sarmiento: É verdade.

Daniel Caetano: Nós deixamos uma parte para o improviso, mas não tínhamos dinheiro, não podíamos gastar muita película. Todo o filme foi filmado com luz do sol, a gente não usou refletor, exceto na parte do bar. Ir pra rua com refletor dá trabalho, e a luz do sol é uma luz bonita. Mas nesse negócio do bar, o Márcio, nosso fotógrafo, quis fazer num bar de verdade. “Mas Márcio, não vai dar, estamos com não-atores,precisamos de um relaxado”….filmamos em casa, no NAV (estúdio da UFF), com toda a tranqüilidade, na hora que quisemos

J. P. Gondim: Queria saber com foi a escalação dos atores. Como foi o contato com o Macalé, Ricardo Miranda…

Guilherme Sarmiento: Quem ajudou no casting foi a Júlia, além de produtora do filme. A personagem da Joana Medeiros seria da Mariana de Moraes, mas o filme demorou tanto que a Mariana engravidou.

Guilherme Sarmiento: Uma coisa importante é que nós fomos o primeiro filme a utilizar o Nós do morro.

Daniel Caetano: Isso é bobagem.

(Risos)

Guilherme Sarmiento: A parte das crianças na escola foi o pessoal do Nós do Morro, por intermédio da Julia também..então, quer dizer, essa parte de seleção de atores ficou muito na mão dela.

Fernando Secco: A parte do filme em que fica tudo escuro estava no roteiro? Eu tava vendo o filme, na hora que eu vi eu até comentei com quem tava ao meu lado: “ como o cinema brasileiro resolve falta de negativo, tá vendo?” Esses tipos de diálogo em off podem ficar toscos, mas ficou muito bom.

Aristeu Araújo: Tem gente que não conhece o filme, mas comenta essa seqüência.

Fernando Secco: Eu acho a melhor fumada de maconha do cinema. Não consigo me lembrar de outra tão boa.

J. P. Gondim: Meteorango Kid

Guilherme Sarmiento: O Marcinho deu uma caprichada naquela parte.

Daniel Caetano: Eu tenho muito orgulho dessa parte, acho muito legal.

Fernando Secco: Cinco minutos de ponta preta e depois aparece aquilo, nossa…

Daniel Caetano: Noves fora o lado de beleza, que a gente sempre quis fazer um negócio bacana, quando você menos espera aparece a imagem, que inclusive engana as pessoas, porque aquilo lá não foi feito só com a chama do baseado…eu achava que era possível, cheguei pro Marcinho e disse “faz assim…” e ele, “cara, isso é impossível, não vai sair nada!” Aí tem um “dimmerzinho”, que depois no laboratório ele baixou a luz, mas tem uma luzinha que acende, e que o próprio fotógrafo tava lá regulando. Agora, isso daí, além de ser bonito, enfim: fundo preto é barato, é só gravar o som (Risos) Mas além disso sempre foi uma desculpa pra mudança do filme, porque até um certo momento são eles lá, fechados, e quando acende a luz muda…era a maneira de dar a virada

Fernando Secco: Dava essa idéia de quando acendesse a luz ia aparecer um monte de macacos, algo do gênero, nossa vai voltar com algo surreal, marcianos…

Daniel Caetano: É verdade.

Fernando Secco: Aquela parte é importante pela construção, não só por eles fumando, mas também pela ponta preta . É uma das coisas mais ousadas do filme.

Daniel Caetano: Eu achava que no Odeon as pessoas fossem gritar. Algumas a favor, outras contra. Naturalmente, a platéia de cinema é mais calma do que a gente pensa

Aristeu Araújo: A platéia no Odeon enlouqueceu quando apareceu o João Luiz Vieira (professor de Cinema da UFF).

Daniel Caetano: Pois é, porque havia muita gente da UFF.

J. P. Gondim: Piada interna, (João Luiz) recolhendo os alunos mortos.

(Risos)

Daniel Caetano: E quando acende o baseado, enfim, eu achei que iam gritar: “uhu, vamo acendê um também!” E eu jurava que ia ter alguém gritando,”Ô, seus filhos da puta, o que fizeram com nosso dinheiro?” Eu acho que vão gritar em algum lugar, não é possível.

Fernando Secco: Eu senti alguém acendendo naquela seqüência…

(Risos)

Guilherme Sarmiento: Eu acho que o filme cobra também das pessoas imaginarem seus próprios filmes. Então na hora que você apaga a luz, há um vazio para a platéia projetar seu próprio filme, as pessoas imaginarem, “o que ta acontecendo naquele escuro o que será que ta rolando ali?” Nós queríamos que as pessoas saíssem do filme com vontade de filmar: é possível fazer um filme solto, livre…

J. P. Gondim: Descontraído…

Guilherme Sarmiento: Descontraído…foi importante terminarmos o filme pra manter essa chama acesa.

Fernando Secco: Dá pra fazer cinema no Brasil, afinal.

Guilherme Sarmiento: E loucamente…

Daniel Caetano: E sem seguir o Syd Field, né? Sem seguir aquele padrãozinho de que você tem um protagonista, com dez minutos todo mundo já sabe o que vai acontecer no filme…

Fernando Secco: Mas eu acho que aquela parte do bar tem um pouco isso, apresenta conflito…

Daniel Caetano: Apresenta, mas assim…Isso é uma coisa que eu acho legal.Quando é que as pessoas entendem que não é um bando de coisas desconjuntadas, mas que o filme na verdade se amarra? Aos 50 minutos de filme, quando o fugitivo chega no bar. Até lá, você fica dizendo: “bom, é um monte de gente falando besteira, e cada hora um filme vai prum lado”. A lógica narrativa é uma coisa muito mais antiga que pode funcionar maravilhosamente, milhares de filmes funcionaram mas aqui, no Brasil, a gente sabe que essas regras, não só essa, mas as regras gerais de cinema engessaram a produção. “Como se deve fazer um filme?” Engessou…

J. P. Gondim: Continuaram com time que está ganhando.

Fernando Secco: Você pode ver em curadoria de festival, eu acho ridículo…Há um apego ao filme narrativo e muitas vezes clássico-narrativo.

Daniel Caetano: Mesmo filme “de arte” é assim.

Guilherme Sarmiento: Mas a questão é a seguinte: geralmente as comissões de curta-metragem são formadas por pessoas que estão no mercado e dão aula de roteiro. Você cria um vício, um formato de aprisionamento. Então você vê nitidamente isso. Hoje em dia há vários cursos de cinema e lá você tem que passar alguma coisa, alguma matéria, e a matéria que passam é justamente o formato Syd Field. Isso se reflete não só dentro da faculdade, como dentro dos próprios festivais, já que os jurados são os que dão as aulas de roteiro, que selecionam filmes…

Guilherme Sarmiento: Então fica tudo com a mesma cara.

Fernando Secco: Fica parecendo curadoria de Festival. Pode pegar os curtas que tão passando no Festival (do Rio), tem um ou outro que foge um pouco disso. Mas tenho a impressão de que, de certo modo, o cinema nacional de curta metragem, porque existe muito festival assim, tá incentivando o filme clássico-narrativo-bem-feitinho, sabe? Ai tem, não sei se vocês gostam ou conhecem, o Alguma Coisa Assim, do Esmir Filho? É isso!

Daniel Caetano: Mas o Esmir quer ser pop né? É isso que eu queria falar. Existe sim esse caminha dito industrial. Mas existe também uma certa…

Aristeu Araújo: Parênteses: (enfatizando) o Esmir é muito pop.

Daniel Caetano: … É, exatamente. Mas existe também uma regra, e isso que me aflige mais, pro dito cinema de arte, quer dizer: o circuitinho alternativo é mais engessado ainda que o cinema industrial. Se você pegar filme de Hollywood, hoje em dia, e for pegar esses filmes que passam em festival, os filmes de Hollywood, se bobear, são até mais criativos. São mais inquietos. Sabe como é, o cara tem que ter uma câmera parada..

Daniel Caetano: …uma certa imersão. Aquele silêncio. Não muda.

Fernando Secco: Ó, se você chegar e falar mal de Tsai Ming-Liang por causa do silêncio vai ter treta aqui!

Daniel Caetano: Mas eu acho que as regras funcionam pra vários cineastas. O Tsai Ming tá agora assumindo o humor dele, o que é ótimo, né? Mas eu gosto do filme, de vários desses cineastas. Se você pegar os grandes caras que fazem cinema assim, se pegar um Kiarostami da vida, pô, é genial, não vou discutir, é óbvio que é genial. O problema é que de repente vira uma regra, vira um tipo de cinema que, pelamordedeus. Criatividade! (irônico) Pra fazer filme de arte tem que fazer plano-seqüência, porque se não tiver plano-seqüência não é de arte…

J. P. Gondim: É pra ter credibilidade, pra ter um filme dito inteligente com platéias que…

Daniel Caetano: É isso mesmo.

J. P. Gondim: …apaziguadas já, no sentido de que já estão acostumadas com aquilo, entendeu?

Aristeu Araújo: É por isso mesmo o que eu tava falando, que gerou toda essa discussão até agora, da liberdade do Conceição. Se você compara o Conceição com o cinema nacional que está sendo feito hoje, é um estranho total.

(Todos falam juntos. Até que um fala “A Concepção”, todos repetem)

Aristeu Araújo: Também é outro estranho.

Guilherme Sarmiento: Eu não gosto do filme, mas é estranho também. Eu me lembro que ele passou, ele estreou no Estação Botafogo 1. O Estação Botafogo 1 é um reduto de…

Daniel Caetano: Passou no Arteplex também.

Guilherme Sarmiento: Não, lá ele não ficou em cartaz. A pré-estréia foi no Arteplex e ele estreou no Estação Botafogo 1. E lá é um reduto de velhinhos, tudo da 3ª idade. Quer dizer, é óbvio que se esse filme estréia no Botafogo 1, nunca vai fazer sucesso, não vai atrair público. Esse era o tipo de filme, o A Concepção, pra estrear em … público jovem.

Daniel Caetano: É… Estação 3, numa sessão noturna. Mas isso é uma questão muito mais complicada. Lançamento é uma coisa muito complicada. A gente tentou aqui botar um esquema de ficar bastante tempo, com uma sessão por dia. A gente podia ter chegado e falado “vamos botar nosso filme cinco vezes por dia”. Mas aí, imagina só, uma sessão às 2h outra às 4h, umas às 6h, às 8h e às 10h! A gente ia se arrebentar!…

Guilherme Sarmiento: Iam ficar vazias as sessões.

Daniel Caetano: …. Como aliás a maioria dos filmes nacionais se arrebenta. Pô, você vira pros caras: “bota uma sessão, duas por dia, mas segura um mês e meio!”. Vamos deixar o boca-a-boca. Daí é foda, porque toda semana fica “neguim” querendo botar filme, aí o cara tira. E a gente ficou menos tempo do que podia. Criar o boca-a-boca é difícil.

Aristeu Araújo: Ficaram quanto tempo no Arteplex?

Daniel Caetano: Três semanas.

Paulo Ricardo de Almeida: Obviamente o cinema brasileiro não tem estratégia de lançamento.

Daniel Caetano: Não tem nenhuma! Mas é difícil porque se você programar uma, eles te quebram.

Guilherme Sarmiento: Eles lançam como se fosse uma produção normal. Lança aí no maior número de cinema possível…

J. P. Gondim: É, como se fosse Homem-Aranha!

Guilherme Sarmiento: … mesmo se for filme de baixo orçamento.

Daniel Caetano: Não é pensada a estratégia.

J. P. Gondim: (fala algo incompreensível) … um horário por dia, ou dois por dia, eles acham que estão diminuindo o filme deles. “Ah não, meu filme tem que ser todo dia 5 sessões, das 2 às 10…”

Daniel Caetano: Mas é isso mesmo! “Você tá diminuindo teu filme.” Eles falaram isso pra gente. Não, mas a gente quer ficar mais tempo pra dar boca-a-boca. Mas chega na hora, o cara tinha 300 estréias de documentários brasileiros, que ocupam o mesmo nicho, e tinha lá os filmes americanos, que pra eles dão dinheiro. Aí você planeja a estratégia e ela é quebrada.

Guilherme Sarmiento: Agora, eu acho estranho o seguinte, por exemplo, a gente passou o filme em Cabo Frio, no festival de Cabo Frio… Foi uma sensação bem interessante porque das sessões que a gente exibiu, de Tiradentes, daqui do Odeon, foi a sessão povão…

Aristeu Araújo: Era todo público jovem, né?

Guilherme Sarmiento: … Povão. Porque o festival lá bolou a estratégia de não ter aula em determinadas escolas públicas à noite, público adulto. As sessões lotavam e a comunicação com esse público também foi muito interessante. Então, eu acho que essa questão dum público, acho que têm filmes que eles demandam certo tempo de serem assimilados. Acho que o Conceição, como vocês falaram, é um corpo estranho, acho que primeiro por ele ser o primeiro filme, vamos dizer, longa…

Daniel Caetano: Jovem, né, cinco pessoas jovens, iniciantes.

Guilherme Sarmiento: Por alunos de uma universidade. Então as pessoas associam a universidade a não-profissionalismo, estudante, não sei o quê mais…

Daniel Caetano: Eu tinha um certo medo desse rótulo que eu acho a gente acabou assumindo, e fez mal. Todos nós somos preconceituosos, todos nós, eu também sou. Você vai ver um filme, e você sabe mais ou menos o que vai ser isso.

Guilherme Sarmiento: É um filme que fala de um momento da gente, que a gente tava vivendo na universidade. Só que o filme acaba extrapolando esses limites justamente por mergulhar nessa verdade, entendeu? Mas ao mesmo tempo, as pessoas têm essa mania de estereotipar, e acho que isso aí prejudica um pouco o filme a curto prazo, mas a longo prazo ele vai aos poucos conquistando o público, e acho que o filme universitário que vier depois do longa vai ter muito menos dificuldade de atingir um público maior logo de prima, porque é um filme assim, é um corpo estranho, é o que você falou, é um corpo estranho.

Daniel Caetano: Isso que o Gui falou é acima de tudo muito mais um desejo nosso do que um fato, porque eu não sei se alguém que começa, hoje na UFF, a fazer um longa, vai ter mais facilidade. Se bobear vai ser a mesma dificuldade.

Paulo Ricardo de Almeida: Não vai, não tem mais como produzir longa em universidade. A UFF não tem mais nem câmera pra filmar.

Daniel Caetano: Mas pode pegar a do CTAv (Centro Técnico Audiovisual) emprestado.

Paulo Ricardo de Almeida: Pode pegar a do CTAv emprestado…

Fernando Secco: Mas aí tem a greve…

Daniel Caetano: Tá em greve.

Paulo Ricardo de Almeida: Mas aí tem a questão do negativo, que a UFF tá cada vez mais difícil de liberar… E a UFF agora tá querendo, pelo menos a UFF, não sei as outras universidades, mas a UFF tá querendo muito mais produção em digital, massificar a produção em digital.

Aristeu Araújo: O 16 mm tá sendo descontinuado. A UFF não vai produzir mais 16 mm, acabou.

Daniel Caetano: Não vai mais produzir 16 mm?

Aristeu Araújo: Estão acabando agora com o 16 mm.

Paulo Ricardo de Almeida: Eu vou filmar em 35 mm.

Guilherme Sarmiento: Mas a questão é de material de revelação, não é uma questão da demanda da
universidade.

Fernando Secco: É uma questão de (transcrição ótica) ótico de som.

Daniel Caetano: É, porque o ótico de som tá acabando, né?

J. P. Gondim: A Labo desmontou a máquina dela de revelação…

Guilherme Sarmiento: Tem super-8, né? Tem super-8.

Fernando Secco: Super-8 tem uma outra questão, a Kodak tá apoiando o super-8.

Aristeu Araújo: E vocês tão falando que o formato 35 mm é melhor, mas acho que o 35 mm é uma transição, a UFF logo-logo vai deixar o 35 mm de lado porque o 35 mm é bem mais caro.

Fernando Secco: Vai ficar só no digital.

Daniel Caetano: Gente, venhamos e convenhamos, eu tô entrando numa coisa de política universitária, e eu sou professor da UFF – então é um coisa delicada de eu dizer – mas assim, francamente, tirando o George Lucas, quem é que consegue produzir em digital e realmente distribuir bem pra caralho? Todo mundo passa pra película depois de fazer em digital, quer dizer, a película ainda é o suporte de exibição. Se a pessoa não aprende a filmar em película, a saber medir a luz na hora, a montar o negócio, porra, bicho, aí -sinceramente – não dá pra entrar numa de produzir em digital como se tudo tivesse apenas mudado. Porque o que acontece, corre o risco de assumir de vez que é um negócio ultra-amador, fica ultra-restrito.

Fernando Secco: Mas a UFF, convenhamos que a cada ano tá virando mais amadora, mas não vou entrar nesses detalhes… Fica em off, fica em off…

J. P. Gondim: Hoje, película 16 mm não se exibe mais. Em Gramado não exibe mais…

Paulo Ricardo de Almeida: Vários festivais agora misturaram digital com película, passa tudo junto.

Aristeu Araújo: Gramado agora jogou fora o digital. Pra deixar registrado.

Daniel Caetano: Só passou película?

Guilherme Sarmiento: Exatamente.

Fernando Secco: Nem isso, porque… Digital tá produzindo tanta coisa, que Gramado, por exemplo, cortou o digital pra não ter problema de seleção. Faz película porque vem menos coisa.

Daniel Caetano: Simplifica, né?

J. P. Gondim: Eles cortaram o 16 mm pra botar filme de internet, né?

Fernando Secco: É filme de celular, cara.

Daniel Caetano: Essa moda…

Paulo Ricardo de Almeida: Ah, filme de celular… Tem um mercado pra produzir filmes para celular, não é fazer filmes de celular. Não é como se fosse uma produção artística, mas é filme para celular, filme pra você acessar do celular da sua…

Daniel Caetano: É, exatamente… Peerre, continua, continua. Vem cá, vai, desenvolve o raciocínio. Você abriu seu celular, você que gosta de cinema, vai abrir teu celular, vai baixar um filminho, vai ficar vendo que legal, podendo ver numa TV? É uma bolha!

Aristeu Araújo: Tá, mas só um dado. Hoje mesmo tava passando na TV, no GNT, uma série em oito episódios do Andrucha Waddington: documentários feitos a partir de celular. Ele pegou uma porrada de celular e distribuiu, tem um monte de jovem e…

Daniel Caetano: E só montou.

Fernando Secco: Programa do João Gordo. Viajando… com João Gordo Viajando. Tudo filmado no celular. Óbvio que é um celular fodão, óbvio que eles ganharam uma fortuna do negócio do celular pra fazer com aquele celular, mas o programa é isso, entendeu? É a onda do momento.

J. P. Gondim: Mas voltando a Conceição, como foi o lance lá da distribuição, da exibição, de entrar na Riofilme?

Fernando Secco: E o lance com a UFF, cara, de novo, voltando a isso.

Aristeu Araújo: Porque é uma merda isso, né? Porque o Cine Arte-UFF exibiu…

Daniel Caetano: Ah, você tá falando disso daí.

Aristeu Araújo: E deu, sei lá, uma semana, duas semanas, e tiraram de cartaz…

Fernando Secco: Só pra não passar em branco.

Aristeu Araújo: …e o cinema da UFF tirou Conceição de cartaz.

Daniel Caetano: O filme é da UFF. O filme foi feito uma parte com o departamento (de Cinema da UFF) e outra parte a reitoria bancou. Então é da UFF. Todas as funções principais são de alunos ou ex-alunos da UFF. E eu acho que a UFF tá reproduzindo, num pequeno universo, a mesma coisa que a gente tem no audiovisual brasileiro como um todo.

Fernando Secco: Exatamente.

Daniel Caetano: Porque o que a gente tem no audiovisual brasileiro como um todo é o seguinte: é o governo brasileiro bancando os filmes…

Fernando Secco: Mas não bancando a distribuição.

Daniel Caetano: Mas não bancando a distribuição, e tendo uma televisão, uma rede pública de televisão, que não exibe os filmes que ele produz na rede que ele mantém.

Paulo Ricardo de Almeida: E vai fazer uma nova rede pública.

Daniel Caetano: Quer dizer, uma gastança de dinheiro e as pessoas não têm acesso às coisas. E a UFF, ela produz bastante, tem um cinema, e não passa sua produção de cinema. È uma coisa complicada. O Nelson Pereira dos Santos eu entrevistei outro dia, tá até no site da Zé Pereira, e ele termina o papo falando do Cine Arte-UFF. Ele diz, “olha, quando a gente começou o curso de cinema, as aulas eram no Arte-UFF, porque não tinha onde dar aula”. As pessoas tinham aula lá e aí pegavam os filmes e passavam em 35 mm. Mas aí a Riofilme procurou o Arte-UFF pra lançar o filme lá, só que o Arte-UFF tem um acordo com o Grupo Estação em que eles passam os filmes do Grupo Estaçã. Então eles já têm uma agenda. Quando a gente entrou no cinema eles já tavam com coisas programadas pra dois meses à frente. E nosso filme deu um público razoável por lá, deu um público acima da média do Arte-UFF. Também não vou dizer que a gente arrebentou e encheu sala não, encheu sobretudo nos fins de semana, e principalmente segunda-feira, que é dois reais o ingresso, é baratíssimo. Encheu, deu 90 pessoas.

Daniel Caetano: Aí de repente a gente soube que depois do dia que deu 90 pessoas, os caras resolveram tirar. Por quê? Porque eles tinham um acordo pra passar outro filme. Aí deu aquele chilique lá, enfim, porque realmente tinha que dar uma resmungada, né? Tudo bem…

Fernando Secco: Tinha que marcar presença, né?

Daniel Caetano: As pessoas que estão lá são legais, são bacanas, mas tem esse acordo que é um problema sério. Peraí, que que a UFF tá bancando um negócio que passa filme do Grupo Estação? É um problema, não tá passando os filmes da UFF, por que os filmes da UFF não estão passando lá?

(…)

Guilherme Sarmiento: Eu acho o seguinte, queria falar também uma coisa, voltando a essa coisa do Arte-UFF, que o que aconteceu na UFF foi uma desarticulação não só do cinema em relação ao filme, mas do próprio departamento com relação ao cinema. Eu acho que isso influencia, que influenciou na própria recepção do filme dentro da UFF. Eu acho que as sessões da UFF foram abaixo do que eu esperava. Era pra tá mais cheio. Mas por falta de mobilização da própria universidade Se você for lá no cinema da UFF hoje, tá um clima meio melancólico, as pessoas não tão indo no cinema mesmo.

Paulo Ricardo de Almeida: É, isso é verdade, as pessoas não vão no cinema.

Daniel Caetano: No Arte-UFF ou no cinema em geral?

Paulo Ricardo de Almeida: No cinema em geral.

Daniel Caetano: Assim, a nossa média em termos de público por sessão, no cinema brasileiro, é excelente. Quer dizer, vou pegar um exemplo de um filme que tá sendo considerado como médio, fracasso… Pega o Cidade dos Homens, que foi ultra bem lançado. A média de público por cópia deles é igual a nossa. E eles tiveram muito mais sessão, porque era sessão todo dia. As sessões dos filmes que foram lançados aí desses documentários todos, eu sei que o documentário que entrou no nosso lugar no Arteplex, que é um filme lindo, vou nem falar demais, filme lindo, e que ganhou o bonequinho aplaudindo do Globo. Esse negócio de crítica… A gente faz porque a gente gosta, porque em termos de levar gente ao cinema é insignificante. O filme que levou o bonequinho do Globo aplaudindo e é um filme bonito, ficou o tempo que a gente ficou e deu menos gente. Bem menos gente.

Daniel Caetano: Americano põe hoje um monte de filme no cinema pra divulgar, pra lançar em DVD e o DVD ser bem lançado. É por isso que eles põem o filme no cinema.

Guilherme Sarmiento: Mas o princípio é convencer colégio. O cara que programa, Alex é o cara que programa o Cine Arte-UFF e ele falando: “cara, ó, a coisa tá melancólica realmente, porque as pessoas não tão tendo mais curiosidade”. Ele falou que o público da UFF na segunda-feira dava uma média de 150 pessoas. Hoje, o pico do Cine Arte-UFF, que foi o Conceição, não dá mais do que 90 pessoas. Então, quer dizer, você vê nitidamente uma diminuição no público do cinema e uma falta de curiosidade da pessoa de buscar o novo.

J. P. Gondim: De analisar, né, de pesquisar.

Guilherme Sarmiento: Então, cara, também não dá pra ficar culpando só o cinema. Eu acho que…

Daniel Caetano: Mas, peraí, também uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Guilherme Sarmiento: Acho que o vacilo foi o seguinte…

Daniel Caetano: O vacilo foi pensar que o Arte-UFF é um cinema comercial, e não é. O Arte-UFF é mantido por uma instituição pública de ensino. E que é preciso cultura. Não tá lá pra botar programação do Estação Botafogo.

Guilherme Sarmiento: O vacilo do Cine Arte-UFF foi o seguinte: eles lançaram o filme na época das férias. Então, a gente não entendeu nada, porque eles mesmos nos programaram à revelia da gente. E acho que essa desarticulação foi mal, porque a gente podia atingir muito mais pessoas em Niterói.

(…)

Aristeu Araújo: Aproveita e fala pra gente o seguinte, o filme tá… Bem, no Rio não tá passando mais…

Daniel Caetano: Não, no RJ ele passou, na sexta e no sábado, em Santa Teresa. Ainda deve voltar pro Museu da República, espera-se. A Riofilme tá tentando o Museu da República, e a gente quer passar em Santa Teresa porque a gente acha que tem a ver. Só que em Santa Teresa eles tão querendo ver se botam a gente num perfil que eu sempre achei que ia dar mais certo, que é um perfil mais maldito. Então vão botar o filme lá no horário de 11 da noite, em Santa Teresa.

Aristeu Araújo: E além disso? Tá em Porto Alegre?

Daniel Caetano: Agora tá em São Paulo, em cartaz na Sala Cinemateca. Tá em cartaz em Porto Alegre e a gente ainda vai exibir acho que em mais de 10 cidades. A gente já tá garantido em Belo Horizonte, Brasília, Aracaju, Salvador, João Pessoa, Natal…

Aristeu Araújo: Oh!

Fernando Secco: Quantas cópias têm o filme?

Daniel Caetano: Por enquanto tem três cópias. A gente quer fazer mais uma. É no aperto, é no aperto. E a cópia, quando é feita pra esse tipo de serviço, de lançamento, é mais barata do que quando você faz o filme restaurado. Eu sei porque trabalho em mostra e filme restaurado a cópia custa R$3.500, 4 pau. Pra filme de circuito, custa R$2 mil, R$ 2.500. Então é, você vê, é impressionante.

Paulo Ricardo de Almeida: Vai lançar em DVD depois? DVD e VHS.

Daniel Caetano: Vai lançar, com certeza. Tudo isso.

Fernando Secco: Pô, lança no camelô, cara.

Daniel Caetano: O negócio do camelô…

Fernando Secco: Pois é, cara, tem muito a cara do Conceição.

J. P. Gondim: Lança na Uruguaiana, lança na Uruguaiana!

Fernando Secco: Lança no camelô. Não vê essa porra do Tropa do Elite? Lança no camelô!

Daniel Caetano: É assim, tenho que admitir que eu tô morrendo de inveja do cara de Tropa de Elite porque ele fez a coisa certa, inclusive na cascata.

Fernando Secco: Se ele fez aquilo…

Daniel Caetano: Com toda a sinceridade, eles fizeram a melhor estratégia e ainda fizeram o charminho que não foram eles.

Fernando Secco: Cara, sabe qual foi a melhor coisa que ele fez? Virar e falar, esse não é o corte final do filme.

Daniel Caetano: E ele falou: “eu nego!” É proibido, não vejam. Isso é uma coisa, gente, isso aí é… Psicanálise, né?

Paulo Ricardo de Almeida: Aí todo mundo vai ver.

Daniel Caetano: Laura Mulvey, né? Função escópica. Não vejam! Ela é genial.

Fernando Secco: Cara, a MTV tinha uma série de comerciais da MTV que era assim: desliga a TV e vai ler um livro.

Aristeu Araújo: Todo muito foi ver MTV.

Fernando Secco: Todo mundo foi ver MTV!

Paulo Ricardo de Almeida: Ele lançou no Festival do Rio, numa sessão às 11h40 da noite, não foi? No Odeon, pra convidados. Quer dizer, todo mundo que viu o filme pirata não pôde ver o filme no Festival do Rio.

Daniel Caetano: É, foi espertíssimo! A divulgação foi genial mesmo.

Fernando Secco: E campanha contra pirataria…

Daniel Caetano: Campanha contra pirataria foi realmente uma coisa muito hipócrita. O cara se deu bem com a pirataria. Fizeram uma divulgação do filme excelente, todo dia tem matéria no jornal. Inclusive eu botei uma nota na Contracampo sacaneando o cara… O Globo Online fez isso aí e era muita hipocrisia, porque tinha o artigo dele dizendo “quem viu o filme é um canalha”, aí logo embaixo tinha uma matéria no blogue do bonequinho dizendo que o ator anda na rua e o pessoal cumprimenta ele, e com razão, porque o cara tá um arraso.

Paulo Ricardo de Almeida: Wagner Moura falou que ele nunca foi tão conhecido quanto agora.

Aristeu Araújo: E o Globo comprou muito essa coisa da publicidade, dessa questão antipirataria. Quando o filme lançou, agora no Festival do Rio, saiu uma matéria no jornal, no Globo Online, não sei como foi no impresso, como é que era? “Tropa de Elite no cinema, como deve ser visto”.
(Todos falam ao mesmo tempo.)

Guilherme Sarmiento: Esse tipo de divulgação ainda é algo muito novo, essa questão da pirataria, essa questão da internet, acho que é um espaço onde há experimentação, entendeu? Acho que ainda tá sendo explorado… Se Tropa de Elite fizer sucesso realmente, acho que vai abrir um precedente muito interessante com essa questão do lançamento do filme e da pirataria. Entendeu?
Daniel Caetano: Eu discordo. Eu acho que é um evento único, se alguém repetir não vai dar certo.
Aristeu Araújo: É, não vai dar.

(Todos falam ao mesmo tempo.)
Paulo Ricardo de Almeida: O próprio filme tratar do Bope, da questão da criminalidade, é bem específico. O Primo Basílio não ia ser um sucesso se lançassem em pirataria.
Fernando Secco: É um filme que trata de um tema que tem uma circulação, sabe. Tem certo apelo, não é qualquer coisa…
Aristeu Araújo: Exatamente, não é só. Tropa de elite, Bope, tráfico, violência, tem tudo pra chamar a atenção.
Fernando Secco: Mas, Daniel, o que eu tava falando naquela hora, voltando muito atrás…
Daniel Caetano: De as pessoas não irem ao cinema, de terem em casa, né?
Fernando Secco: É, de não ir mais ao cinema, quem fala isso há anos é o Peter Greenaway, sabe? Ele fala isso há anos, que o cinema morreu, que o ritual de ir ao cinema é ridículo, que não devia existir mais… Inclusive foi engraçado, ele lançou um filme agora. Porra, se o cinema morreu, o que ele tá fazendo?
Aristeu Araújo: Eu acho que “cinema morreu” é marketing também do Greenaway.
Fernando Secco: Mas, cara, ele e o Godard falam isso há anos, sabe. O que tô falando é uma coisa que realmente tá acontecendo.
Paulo Ricardo de Almeida: O Derek Jarman falava que o Peter Greenaway pode usar os roteiros dele numa bolsa da Gucci.
(Todos riem.)

J. P. Gondim: Como que foi o lance da direção coletiva, o que cada um fazia, você fazia plano 1, 3, 5…?

Daniel Caetano: A divisão coletiva foi uma coisa simples: tal seqüência, fulano vai dirigir. Teve uma só parte que duas pessoas dirigiam simultaneamente, que foi por acordo. Mas, a parte do fugitivo correndo pela cidade, o tempo todo, aquela coisa que tem steadycam, foi o André e a Samanta, fizeram juntos. Às vezes saía só o André, às vezes a Samanta. Enfim, foram os dois juntos que dirigiram. Toda a parte do pessoal conversando no bar eu dirigi. Por isso que não apareço.
Paulo Ricardo de Almeida: É por isso que não aparece ou tem outro motivo?

Daniel Caetano: Não, só isso mesmo, porque tinha que dirigir. A parte da velhinha na casa e a parte na escola, foi o Guilherme que dirigiu, todos os depoimentos também foram dirigidos pelo Guilherme…

Fernando Secco: Os depoimentos são uma coisa bem pouco falada no filme, né?

Daniel Caetano: A Samanta dirigiu a parte do gringo e a Cíntia dirigiu aquela parte dos bandidos e do fusquinha atropelado, assim como a parte do tatuador, que é imediatamente antes do fusquinha. Então, houve uma divisão, cada hora vai ser um.

Fernando Secco: E o gorila?

Daniel Caetano: Hã?

Fernando Secco: O gorila?

Daniel Caetano: O gorila faz parte da parte do fugitivo. O fugitivo passa e tem o gorila.

Guilherme Sarmiento: A situação dela possibilitava isso de você viajar mais, porque como era um cara só correndo, só tinha mais ou menos cemitério, mais ou menos creditada a paisagem.

Daniel Caetano: A mulher nua ia aparecer muito menos. Foi uma idéia do Carlos, que ia aparecer no bar, basicamente, e na parte inicial. O André começou a encher seqüências… Aparece lá na praia… Que é engraçado… “Que menina nua é essa?”

Guilherme Sarmiento: A menina chegou a ficar gripada, pelada até… Triste…

Fernando Secco: Ela tem um pouco a ver com o cinema nacional…

Daniel Caetano: É. A Bel é impressionante. Ela é uma atriz séria. Além de ser modelo, ela faz performance artística. Então ela tá acostumada a ficar nua.

Guilherme Sarmiento: A gente não acreditava que ia conseguir uma mulher pelada e gostosa pra botar no filme…

(Todos riem.)

Daniel Caetano: E a Bel…

Guilherme Sarmiento: Ela arrebentou.

Daniel Caetano: Tranqüilíssima. Se você medisse a pressão dela na hora, cara, ela não mudava a pulsação. Assim, tranqüilidade total.

(…)

J. P. Gondim: E por que vocês pediram pro Macalé cantar novamente a música do Amuleto de Ogum? Foi na hora? Como foi?

Daniel Caetano: Isso foi uma idéia do André também. Foi uma sugestão da Julia que a gente gravasse ele cantando alguma coisa. Aí eu me lembro que, a princípio, tínhamos pensado num hino do Glauber Rocha que o Macalé musicou. E que eu acho que ia ficar meio pesado, porque era uma coisa meio marcial. E aí o André sacou que tinha muito mais a ver, não sei se ele sacou na véspera, mas eu me lembro que ele chegou na véspera e disse: não, vamos gravar a música do Amuleto que tem mais a ver.

Fernando Secco: UFF, né? Nelson (Pereira dos Santos) e tal.

Daniel Caetano: É, exatamente.

Fernando Secco: Eu acho uma homenagem do caralho.

Daniel Caetano: Agora, o Macalé só soube disso no dia. O André tinha pensado um pouco antes e falou pra ele: “Olha, a gente não quer a do Glauber não, quer a do Amuleto”. Eu me lembro que, antes da filmagem, o Macalé ficou tentando lembrar da harmonia da música, porque ele não tocava há um tempo.

(J. P. Gondim canta a música de O Amuleto de Ogum.)

Daniel Caetano: Aí ficou lá tirando, tirando, e tirou e fez uma gravação linda. Aquilo lá inclusive foi gravado com microfone de cena. A gente não foi prum estúdio gravar. Liga aí, grava e toca.
Fernando Secco: Isso é uma coisa fantástica, do cinema em geral, mas acho que cinema universitário tem muito isso, ainda mais de faculdade sem grana, que são essas coisas meio mágicas que acontecem.

Daniel Caetano: A simplicidade às vezes facilita.

Fernando Secco: É, a simplicidade, a falta de grana, a falta de tempo, a falta da porra toda, e de repente tem uns momentos assim que são extremamente mágicos e dentro daquilo tudo acontece.

Daniel Caetano: Ficou legal, né, ficou bonito. Uma coisa meio epifania.

Fernando Secco: É, isso aí eu acho que é meio… Não é um estigma, é a palavra errada, mas é mais ou menos isso…

J. P. Gondim: Marca.

Fernando Secco: É uma marca do cinema universitário…

J. P. Gondim: Indelével.

Fernando Secco: Assim, de estar todo mundo ali fazendo porque quer, porque gosta, porque compra a idéia.

(Todos falam ao mesmo tempo.)

Daniel Caetano: O legal disso aí, acho que essa emoção toda, é porque a gente acredita muito que o cinema vai vir de uma idéia original, que o cara vai ter e vai executar muito bem. E aí de repente nesse negócio você vê que a colaboração dos outros é fundamental.

Fernando Secco: Não é colaboração: é o acaso que é fundamental.

J. P. Gondim: Mas o acaso vem porque…

Daniel Caetano: Porque abriu pro acaso.

J. P. Gondim: Abriu, abriu também, vem cá acaso, pra fazer uma coisa bacana, porque todo mundo lá, com aquele gás todo maneiro, vai rolar, não sei o quê e tal.

Fernando Secco: Conceição faz isso, né? E eu acho que ele se dá bem por isso também.

J. P. Gondim: Eu acho bacana também, posso tá falando besteira, mas que Conceição é “um filme de”, e vocês chamaram todo mundo pra…

Daniel Caetano: É, no cartaz tá assim.

J. P. Gondim: É “um filme de” fulano, sicrano e beltrano, do outro que fez aquilo outro. Acho isso legal, porque todo mundo comprou essa idéia realmente.

Daniel Caetano: A idéia na verdade dos créditos era pra ser assim. Mas o cartaz ficou assim, “um filme de”. E aí tá um monte de gente. É o maior barato.

Fernando Secco: É etc ou três pontos?

Daniel Caetano: Hã?

Fernando Secco: É etc ou três pontos no cartaz? Tem um…

Daniel Caetano: Não, não é em etc não.

J. P. Gondim: É “um filme de”, aí tem lá…

Guilherme Sarmiento: “E muito mais.”

Daniel Caetano: E muito mais. Porque realmente tinha muito mais gente pra botar lá.

Aristeu Araújo: Eu fiquei curioso porque se falou que o Conceição ia passar em Natal.

Daniel Caetano: Pois é, a gente conseguiu além do Arteplex do RJ e SP, o circuito que é ligado ao Arteplex em Brasília e Belo Horizonte; e uma sala cult lá de Porto Alegre. Um belo dia me liga às 10 da manhã um cara de Aracaju, gente boníssima, dizendo: “eu tenho um projeto chamado Cinecult, que é o seguinte…”. O Cinemark, que tem aquela sessão “caveira de burro”, que é às 3 da tarde, vai pouca gente, aí tiveram uma idéia: faz o Cinecult, pega filmes ditos inteligentes…

Aristeu Araújo: Isso no país inteiro?

Daniel Caetano: É. Filmes inteligentes, filmes cult, pode ser europeu, mas sobretudo brasileiro, pra passar nesse horário de 3 da tarde no circuito Cinemark no Brasil inteiro. Então o que acontece, o cara tem direito pra passar filme em Salvador, Natal, João Pessoa, Aracaju, Florianópolis, todos esses lugares que têm Cinemark. Nessa sessão Cinecult ele vai passar o nosso filme. Então só nisso aí a gente garantiu sete capitais exibindo o filme.

Aristeu Araújo: Sete capitais pelo Cinemark…

Daniel Caetano: Pois é, como é que eu ia esperar que o Cinemark fosse passar Conceição.

Fernando Secco: Cara, depois que o Arteplex manteve o filme em cartaz e o Cine-UFF não, você espera tudo.

Daniel Caetano: Eu achei que o filme ia passar numa porrada de festival, porque era o filme dos garotos. Depois vai passar no Rio uma semana, em São Paulo uma semana e nunca mais. Mas aconteceu o contrário, nenhum festival aceitou a gente, da mesma maneira que nenhum concurso aprovou o nosso projeto, nenhum festival aceitou a gente até Tiradentes. Brasília não quis, Rio não quis, São Paulo não quis, Gramado não quis, nenhum deles quis o nosso filme. Os Festivais querem passar os filmes mais produzidos. E eu achei que em circuito a gente ia se ferrar, que nada, no circuito é muito mais acessível.

Fernando Secco: No Cinemark, cara!

Daniel Caetano: No Cinemark!

Fernando Secco: É surreal isso. Você quer dizer que se eu entrar no site do Cinemark, vai estar lá Conceição?

Daniel Caetano: Não sei se já, mas vai estar. Com certeza.

Fernando Secco: Genial!

Daniel Caetano: Pois é, pois é!

A conta: 12 cervejas, 1 refrigerante, 3 batatas, 1 galeto.



2 Commentários sobre 'Conversando sobre Conceição'

  1.  
    Roberto Nunes

    1 Outubro, 2007| 2:39 pm


     

    Ai Galera do Conceição, o filme vai entrar em Cartaz no Cine Cult em Salvador de 05 a 11/10, lá no Cinemark do Salvador Shopping, sessão única as 15 Horas.
    Ingressos a R$ 4,00 e R$ 2,00 (meia),depois vamos levá-lo para Florianópolis (Cinemark Floripa Shopping) de 26/10 a 01/11 , depois disso ainda podem contar com a sessões em Ribeirão Preto, Aracaju, Natal e Manaus.
    Abs.

    Roberto Nunes
    Coordenador do Cine Cult

  2.  
    godo

    5 Fevereiro, 2008| 12:19 am


     

    lutei junto dos diretores em a ivasão da rio filmes o andre sampaio tinha me convidado
    eu vejo o conceição como o ultimo filme brasileiro prq como falou o sarmiento nninguem vae mais ver filme em sala de cinema as cabeças estão todas ligadas nos multiplex conceição es filme de cinema es totalmente na contramão da ordem do capo severiano/globo filmes/sid field, pô ficar 1 semana na sala de exibição um filme universitário e mito de sisifo e muita coragem

    viva o conceição autor bom e autor morto

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