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O Estado do Mundo


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Publicado em 28 de Setembro de 2007

O Estado do Mundo – vários diretores, 2007, Portugal – Mostra Panorama

Outro filme-compilação no festival. Dessa vez, menos cineastas, mais tempo pra cada um. Seis diretores dividem espaço pra falar de uma coisa meio complicada: O Estado do Mundo é coisa que sempre pode levar a bobagens panfletárias e extremamente vulgares, óbvias, banais.

E isso acontece, felizmente, em apenas um dos filmes. Germano, de Vicente Ferraz (diretor de Soy Cuba, o Mamute Siberiano) é exatamente isso. Chega a ser constrangedor em alguns momentos, desde o diálogos impostados até a tosca aparição do gigante-navio-destruidor-de-vidas e da péssima seqüência que se segue, onde dois dos tripulantes do barquinho de pesca do tal Germano gritam para que ele salte do barco, que seria “atropelado” pelo grande navio. No fim, ele afirma em voz alta: “Ainda vou achar outra coisa!”. Putz.

Felizmente, como disse, isso ocorre apenas com Vicente Ferraz. Os outros segmentos são bons, têm uma certa unidade que consegue traçar panoramas pessoais do que seria o tal “estado do mundo”, ainda assim sem cair em lições de moral bestas. Isso quase ocorre nos trechos One Way, de Ayisha Abraham, e em Brutality Factory, de Bing Wang. Aquele, devido à quase vitimização do objeto, erro típico do documentário “defensor dos fracos e oprimidos”. Ayisha consegue se desviar um pouco desse caminho, consegue traçar uma relação leve de distanciamento. Não é nem de longe um grande filme, mas passa.

O de Bing Wang trata de uma torturada chinesa nos porões do governo comunista. Poderia ser muito, muito besta, mas o interessante é a relação que o filme trava com o espaço. Trata a tortura com um certo distanciamento, uma certa frieza, um desligamento. O chefe de tortura está mais preocupado em tirar um cochilo. Também quase escapa no momento em que se liga uma vitrola e a música, extremamente distorcida, tenta sugerir ou grifar algo perturbador. Mas o filme ganha seu mérito no final, nos dois últimos planos, da antiga construção sendo demolida.

O destaque fica mesmo onde se esperava. Apichatpong (trecho Luminous People) faz um retrato em Super 8 de uma viagem de navio ao longo de um rio. Várias pessoas e um monge realizam um ritual no rio e voltam. O desenho de som do filme é brilhante, encantador. Se o Super 8 já tem esse caráter caseiro, de registro pessoal, as falas, fora de sinc, em off, ou coisa que o valha, tornar o filme ainda mais memorial. A câmera treme e compõe mosaicos de luz, algumas vezes lembrando muito o cinema de Jonas Mekas. Bonito, renovador, curandeiro, como sempre. Quem não viu Síndromes e um Século neste festival, o longa de Apichatpong de 2006, e nem viu este, perdeu dois grandes filmes do diretor de Bangkok.

Pedro Costa (trecho Tarrafal) faz mais um filme bonito. Confesso não ser muito fã dos filmes dele, mas estão lá presentes os enquadramentos poderosos, os diálogos absolutamente lindos, mesmo que formais demais. Faz o que Vicente Ferraz não sabe: dirigir atores. E fala mais uma vez do exílio, da falta do lar, mas da esperança.

E Chantal Akerman. Nunca tinha nem ouvido falar dela. Seu trecho, Tombée de nuit sur Shanghai, tem pouquíssimos planos. Um deles de uns 6 minutos, com um foco doce lindo (foco doce é quando tá um pouquinho fora de foco só), de um navio com uma grande tela-oudoor, onde passam vídeos publicitários, etc. A música toca alto e o navio, que vem lá de baixo, passa na frente dos olhos. Há alguns planos antes e depois desse, poucos. Então cortamos para o plano final do filme, que deve ter uns 10 minutos, fixo, ponto de vista de uma varanda: a cidade. Dois painéis (duas dessas telas-outdoor) estão em prédios. É noite, a música publicitária também toca alto, corta, volta, muda pra outra. No canto inferior, um reflexo. Bem embaixo, passa um trem de vez em quando. Algumas luzes se apagam no prédio á direita. Ó! Uma sombra passa no reflexo. Outro trem. Bonito o jogo de luzes no painel. Uma música mais conhecida e outro trem. E mais 8 minutos. Parece, depois de toda a construção que o filme passou (os trechos, na ordem que passam, têm cada vez mais planos longos e fixos. O primeiro, de Apichatpong, é completamente tremido), parece que finalmente há uma unidade final em “O Estado do Mundo”. E que esse estado é exatemente o que está acontecendo ali, agora, sem intervenções. Absolutamente lindo. Não vejo a hora de ver mais coisas de Chantal.

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2007

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