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Mundo Livre


Por Paulo Ricardo de Almeida

Publicado em 28 de Setembro de 2007

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Angie (anjo?) explora os trabalhadores imigrantes em Mundo Livre.

Mundo Livre (It’s a Free World…), de Ken Loach, 2007, Reino Unido / Alemanha / Espanha / Itália / Polônia. Mostra Panorama.

Há os que enxergam Ken Loach como humanista, cineasta política que reflete sobre as conseqüências nefastas da globalização financeira ou paladino das classes trabalhadoras, dos injustiçados e dos excluídos pelo capitalismo internacional. É preciso, no entanto, contestar as idéias pré-concebidas acerca do diretor britânico, uma vez que suas aparentes boas intenções somente anulam o papel do indivíduo na História, transformando-o de agente em expectador de uma superestrutura tão vaga quanto facilmente condenável por todos os males sociais e o arrolando na mesma lama contra a qual ele deveria se revoltar.

Cansada da exploração por chefes que a assediam sexualmente, Angie, mãe solteira ausente em conflito com a família, abre seu próprio negócio junto à amiga Rose – elas contratam trabalhadores imigrantes temporários, mão-de-obra extremamente barata para empresas que requerem serviços braçais. São os novos tempos da União Européia (opostos ao pai de Angie, funcionário da mesma firma pela vida inteira): dissolução das fronteiras nacionais, procura de novas oportunidades pelos imigrantes vindos de países pobres (sobretudo do Leste Europeu, como Polônia e Ucrânia), vínculos empregatícios cada vez mais frágeis com o fim do Estado de Bem Estar Social. Informalidade que, em Mundo Livre, mistura-se com a ilegalidade, já que não apenas Angie e Rose usam trabalhadores clandestinos e sem documentos, como também colocam sua empresa à margem da lei, pois não a registram, fogem da polícia e não pagam impostos.

De explorada à exploradora, de injustiçada a patrão, de ética à imoral. Ken Loach se centra na jornada pessoal de Angie, nas mudanças perversas que o “sistema” lhe provoca e na forma como ela o utiliza para satisfazer as próprias ambições. Mundo Livre, porém, ao denunciar a selvageria com que o mercado global massacra o indivíduo – pois lhe destrói os ideais, derruba os valores e as crenças em prol do dinheiro, aniquila o núcleo familiar, incita a violência e a covardia contra os desfavorecidos –, cai no paradoxo de igualmente não defender o livre-arbítrio, a vontade e os atos praticados pelos homens, e sim de condená-los, na medida em que o roteiro de Paul Laverty (vencedor do prêmio respectivo no Festival de Veneza 2007) exige, com sua lógica maquiavélica, a total submissão dos personagens, em especial de Angie, à falta de escrúpulos do capitalismo liberal.

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Mãe solteira e filho desajustado: melodrama impera no novo Ken Loach.

Angie, Angela: no nome da protagonista, Ken Loach e Paul Laverty já a predispõe, sem qualquer chance diferente, ao calvário. Assim, é necessário que Angie – do latim “angellus”, que significa “anjo” – chafurde na imundície que a cerca, pois Mundo Livre apenas se aproveita da estrutura clássica do melodrama em que a mulher, inicialmente representante da pureza, corrompo-se ao imergir na realidade sócio-econômica apodrecida e corrupta que prevalece. Diretor e roteirista manipulam personagens e espectadores, com artifícios caros aos piores dramalhões (o sentimento de culpa quanto aos refugiados iranianos; a ameaça de seqüestro ao filho desajustado como punição aos crimes que Angie cometeu; a lição de moral que Rose aplica na sócia após o hediondo telefonema; os desentendimentos entre a heroína e seus pais, refúgios de consciência e de bom senso dentro do filme), esquecendo-se que não se tratam de inimigos a quem se deve acusar, mas de companheiros, sujeitos às mesmas injustiças que Mundo Livre pretende combater.

Para Ken Loach, não há liberdade, esperança ou beleza – somente cinismo, medo e amargura sob a roupagem do melodrama social barato. E que cinema político é este em que não existem saídas para melhorar o mundo?

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2007

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