A Via Láctea, de Lina Chamie, 2007, Brasil. Premiere Brasil
A Via Láctea é um olhar sobre São Paulo. A metrópole está presente no longa-metragem como um personagem, talvez até como um protagonista. A relação amorosa vivida por Marco Ricca e Alice Braga está lá retratada como em papéis de coadjuvantes.
Eles vivem, no filme, um relacionamento desgastado. Marco Ricca é um escritor estressado e cansado demais para querer sair e se divertir com a namorada. São estereótipos do mundo da arte. Há o escritor carrancudo e a atriz alegre demais, com energia demais. É a partir desse impasse, de uma briga por telefone, de um término de relação confuso, que o longa irá se apoiar.
O filme vai trabalhar a impossibilidade dos relacionamentos, a presença ostensiva de uma cidade em suas vidas, de como a metrópole nos esmaga e de como odiamos e almejamos por isso.
A Via Láctea é um filme de divagações. Enquanto Heitor, personagem de Marco Ricca, tenta chegar até a casa da sua namorada, o filme se estende. Há o trânsito que o impede. E como congestionamentos também são lugares para se pensar a vida, a do escritor invade os outdoors, o rádio. A impessoalidade no caos urbano cai de lado para afrontá-lo.
Embora dito assim pareça uma grande idéia, essa interferência é o que o filme tem de mais complicado nos quesitos direção/roteiro. É que simbologias são algo difíceis de serem trabalhadas. Às vezes, quando mal encaixadas, há um estranhamento tamanho ou, nesse caso, um “já vi disso”, que chega a constranger.
Outro forte ponto de estranhamento (e aqui o “já vi disso” nem cabe) está fincado nas mãos da montagem. A Via Láctea é um filme extremamente entrecortado. Entre flashbacks e devaneios, o tempo presente às vezes nem dá as caras. É necessário, assim, um olho atento para acompanhar o filme.
Até pelo protagonista ser um escritor, A Via Láctea é pontuado insistentemente por citações, trechos de poemas, capas de livros. É um recurso simpático, mas que talvez ajude a criar uma distância que o filme não quer ter com os seus expectadores. São citações a, por exemplo, Cidades Invisíveis, de Ítalo Cavino; Paulicéia Desvairada, de Mario de Andrade; Fragmentos de Um Discurso Amoroso, de Roland Barthes. Ou seja, é como se o roteiro buscasse em outros autores hiperlinks que possibilitem uma segunda ou terceira visão do que é ali mostrado.
É um filme bonito, que apesar de seus problemas (alguns bem evidentes), vale ser assistido. É um filme que tenta, de alguma forma, reinventar alguns dos passos que estão sendo dados pelo cinema nacional. E isso já é muito. A Via Láctea se baseia num relacionamento amoroso e não tem vergonha de ser singelo e doce quando toca no assunto.
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24 May, 2008| 11:22 am
Eu ainda não vi, mas se o filme fôr só metade da maravilha que foi “Tônica Dominante”, já deverá ser muito, muito bom!!! (raridade em cinema nacional, muito inteligente, muita sensibilidade, muita beleza - Tônica literalmente me tirou o fôlego, jóia rara - gema…
24 May, 2008| 11:26 am
Eu não vi o Tônica Dominante. Sobre o Via Láctea, é isto que aí escrevi. É um filme importante. Injustiçado também.