Revista Moviola – Revista de cinema e artes » O Balanço

O Balanço


Por

Publicado em 27 de Setembro de 2007

Jean-Honoré Fragonard (1732-1806), discípulo de Chardin e de Boucher, marcou o ápice do rococó na pintura francesa. Notabilizou-se, primeiro, como grande paisagista, para em seguida enveredar pelo retrato familiar em interiores e pelo erotismo. Sua obra mais conhecida é O Balanço, possivelmente de 1767:

Em O Balanço, Fragonard antecipa técnicas e conceitos fundamentais aos impressionistas: um século à frente das inovações trazidas por Monet, Manet e Renoir, já podemos ver a tentativa de capturar o momento fugidio (“eternizar o efêmero”, como dizia Claude Monet) da moça que se diverte; a suprema alegria e jovialidade, aliada à ternura e à sensação de acolhimento, que brotam com toda força do quadro; as pinceladas vivas e libertas do rigor acadêmico; os jogos de luz e de cores apenas possíveis ao ar livre, em contato com a natureza. Jean-Honoré Fragonard, dessa maneira, influenciou decisivamente Pierre-Auguste Renoir (1841 – 1919), que realizou sua própria versão de O Balanço, em 1876:

Tema idêntico, a mesma preocupação com os sentimentos e os afetos contidos na cena banal, mas que flagra o instante do encontro, da conversa entre o homem e a mulher, suave e sutilmente felizes em meio ao ambiente que os cerca. Corações em contato, quando o calor das emoções mais profundas e inconfessáveis se instala brevemente nas superfícies dos corpos: pele, folhas, vento, roupas, cabelos, luz. Estados atmosféricos que, em suas flutuações microscópicas, captam os ritmos emotivos que perpassam o acontecimento – como o balançar festivo da jovem parisiense que descobre o campo em Divertimento Campestre, de Jean Renoir. A perda da inocência, o último suspiro da alma livre (pois se casará com o protótipo do burguês omisso), a experiência do amor verdadeiro e do sexo, a tragédia de se viver infeliz após conhecer, por um segundo que seja, a felicidade:
YouTube Preview Image

Divertimento Campestre, de Jean Renoir.

Foi Eisenstein quem invocou, tanto em A Forma do Filme quanto em O Sentido do Filme, a relação de parentesco entre o cinema e a pintura. O diretor e teórico soviético pretendia, claro, legitimar a arte insipiente, nascida no final do século XIX, ao apontá-la como sucessora, usufruindo portanto da mesma linha temporal, da tradição pictórica do Ocidente. Muito além das estruturas narrativas e dramáticas, o cinema se assenta sobre séculos de estudos e pesquisas a respeito de direcionamento da luz, composição do quadro, mistura e expressividade das cores e das linhas, perspectiva geométrica, achatamento do plano, formas abstratas ou figurativas, realizadas por Rembrandt, Vermeer, Velázquez, Goya, Picasso, Cézanne, Matisse, Kandinsky, Klee. “Os jogadores de cartas”, tema caro à escola veneziana seiscentista, por exemplo, foi transformado por Caravaggio, chegou aos impressionistas – antes pela literatura (Dostoiévski, Schnitzler, Stevenson) –, para desembocar no curta-metragem dos irmãos Lumiére. Ou “O balanço”, Jean-Honoré Fragonard a Renoir, pai – e, posteriormente, a Renoir, filho.

Pode-se contestar a ligação entre Fragonard, Auguste Renoir e Jean Renoir como deveras específica, caso particular que não representa o todo, uma vez que se tem a família na passagem de uma geração a outra. Jacques Aumont, porém, considera Louis e Auguste Lumiére os últimos pintores impressionistas: o olho mecânico do cinematógrafo percebe mesmo as ínfimas variações atmosféricas, registra objetivamente a passagem do tempo e, se o eterniza, também acaba por atualizá-lo a cada nova projeção. O paradoxo entre o perene e o movente enfim resolvido, como demonstra What Happened on 23rd Street, filmado por Edwin S. Porter em 1901 para a Edison Company:

YouTube Preview Image
What Happened on 23rd Street, de Edwin S. Porter.

Câmera estática, profundidade de campo no infinito, pedestres e veículos que, naquele instante, no cruzamento da Rua 23 com a 6ª Avenida em Nova York, circulam em frente à objetiva. Imperceptivelmente aos nossos olhos, dois passantes – na verdade, Florence Georgie e o fotógrafo Alfred Abadie, que representaram na seqüência – saem do fundo para o primeiro plano, em direção ao duto de ar que levanta a saia da mulher (mais de meio século antes de Marilyn Monroe em O Pecado Mora ao Lado!). Mesclando ficção e documentário, encenação e registro desde o princípio, a câmera-olho do cinematógrafo personifica o flaneur, personagem criado na literatura em meados do século XIX, que observa de relance imagens rápidas e fugidias, aceleradas pelas revoluções tecnológicas e industriais – energia a vapor, ferrovia, telégrafo, eletricidade. O rosto desconhecido que se perde no fluxo urbano em O Homem da Multidão, de Edgar Allan Poe, ou a mulher pela qual o poeta se apaixona, embora saiba que não a verá outra vez, no poema A Uma Passante, de Charles Baudelaire (tradução de Guilherme de Almeida):

A Uma Passante

A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão vaidosa
Erguendo e balançando a barra alva da saia;

Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina.
Eu bebia, como um basbaque extravagante,
No tempestuoso céu do seu olhar distante,
A doçura que encanta e o prazer que assassina.

Brilho… e a noite depois! – Fugitiva beldade
De um olhar que me fez nascer segunda vez,
Não mais te hei de rever senão na eternidade?

Longe daqui! tarde demais! “nunca” talvez!
Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,
Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste!

O cinema, ironicamente, ao recortar intervalos breves de tempo e de espaço, permite que o passado continue vivo, apesar de morto. Memória gravada pela eternidade.

: : Compartilhe

    

    2 Commentários sobre 'O Balanço'

    1.  
      godo

      9 Fevereiro, 2008| 2:27 pm


       

      muito bom,esse trabalho q compara pintura e cinema e os filmes mudos me remete a um tempo sem gramaticas e iluminados registrando o ritmo de um seculo q se iniciava,valeu moviolanos

    2.  

      7 Agosto, 2008| 3:26 pm


       

      essa matéria ficou muito boa

    Deixe um comentário

    (obrigatório)

    (obrigatório)


    Dê a sua opinião. Mas lembre-se: os comentários serão moderados. Apenas após análise dos editores eles serão postados.



    RSS feed para comentários deste artigo | TrackBack URL

     

    Por Paulo Ricardo de Almeida

    26 de Outubro de 2011

    Políssia, França, 2011, de Maïwenn Maïwenn acompanha o dia-a-dia da unidade policial que combate os crimes sexuais contra crianças. A câmera, sempre instável e contingente, flagra momentos breves, que revelam menos as investigações em si e mais as agruras psíquicas e emotivas que solapam as personagens em contato com a pedofilia. A narrativa de Políssia [...]

    Por Rodrigo Cazes

    20 de Outubro de 2011

    Caminho para o nada, Monte Hellman, EUA, 2011 O cinema é uma manifestação artística com imensa capacidade para reproduzir a realidade, graças a sua reprodução ótica a 24 quadros por segundo. Mas, ao mesmo tempo, também possui uma enorme natureza de ilusão, devida à sua natureza de cópia e, nos dias de hoje, às ilusões [...]

    Por Paulo Ricardo de Almeida

    19 de Outubro de 2011

    Drive, EUA, 2011, de Nicolas Winding Refn No clímax de Drive, Bernie e o herói se enfrentam na rua, à luz do dia, mas vemos apenas suas sombras. Para a Los Angeles “oficial”, de fato, eles não existem – são personagens marginais, que vivem nos subterrâneos da grande metrópole. O herói não tem nome. Quando [...]

    Por Luciane Quoos

    18 de Outubro de 2011

    Dublê do diabo, Bélgica/Holanda, 2011, Lee Tamahori Assistindo ao filme Dublê do diabo sem saber que era baseado no livro escrito por Latif Yahia, um oficial do exército iraquiano que foi obrigado a passar-se pelo inescrupuloso Uday Hussein, filho de Saddam Hussein, concluímos que é um bom filme de ação, com cenas eletrizantes, uma câmera [...]

    Por Paulo Ricardo de Almeida

    18 de Outubro de 2011

    O Moinho e a Cruz, Suécia e Polônia, 2011, Lech Majewski   O Moinho e a Cruz desvela as forças econômicas, sociais, políticas e até ecológicas que se articularam para a confecção do quadro “O Caminho do Calvário”, de Pieter Bruegel: o relacionamento do pintor com o banqueiro e mecenas flamengo Nicolaes Jonghelinck, a presença [...]

    Anima Mundi Animação animações Brasil Cachaça Cinema Clube Cannes CCBB Cineclube Cinema cinema brasileiro Cinema francês Curta Curta-metragem Curtas Debate Documentário Entrevista FBCU Festival Festival de Cannes Festival do Rio Festival do Rio 2009 Festival do Rio 2010 Festival do Rio 2011 festrio França Gay Iraque Juventude Literatura Memória Mix Brasil Morte Mostra Mostra de Tiradentes Música Odeon Oscar Poemas Poesia Rio de Janeiro Romênia Teatro Versos É Tudo Verdade

    WP Cumulus Flash tag cloud by Roy Tanck and Luke Morton requires Flash Player 9 or better.