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Eu não quero dormir sozinho


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Publicado em 27 de Setembro de 2007

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Norman Bin Atun e Lee Kang-Sheng nas ruínas modernas.
Tsai Ming-Liang construindo um novo mundo.

Eu Não Quero Dormir Sozinho (I Don’t Want to Sleep Alone), de Tsai Ming-Liang, 2006, Taiwan – Mostra Panorama

Tsai sempre falou de distância, de uma idéia de desejo incompleto, de uma vontade de viver mais do que é possível ou até mesmo cabível. Na longa história de relacionamentos que Tsai conta ao longo de seus filmes, em vários momentos houve essa relação entre 2 homens e 1 mulher, desde seu primeiro longa Rebels of the Neon God, de 92.

Esse triplo relacionamento sempre resultava em nova distância, em afastamento e solidão. O último plano de Vive L’Amour (um close de 6 minutos de Chen chorando compulsivamente) mostrava isso de forma aterradora. Logo depois Tsai se focou no relacionamento do casal Lee/Chen, construindo esse crescendo até o final ultra-romântico (é, é romântico sim!) de O Sabor da Melancia.

Agora voltamos ao relacionamento triplo. E para isso, Tsai faz um movimento contrário. Disse em meu ensaio sobre a obra de Tsai, que a construção de seus signos é impressionante pois adiciona significados, e assim se renova, se permite renovar. Lee Kang-Sheng cumpre um papel duplo. De cabelo raspado, como sempre apareceu, faz o papel de um homem em coma; com longas cabeleiras, renova o signo visual de Tsai – se transforma e anda pro mundo. Aliás, figura hilária. Li em algum lugar a comparação entre a presença impassível de Lee e Buster Keaton. Sim, Lee é extremamente engraçado. Assim que aparece, com longos cabelos, é quase inevitável rir.

Vemos então dois relacionamentos paralelos. O de Chen (a moça) com o Lee em coma, imcapacitado de se relacionar com o mundo, talvez antiquado mesmo, preso na melancolia dos filmes anteriores de Tsai; e de Norman Bin Atun, ator nunca antes utilizado por Tsai, se relacionando com esse “novo” Lee Kang-Sheng. Esses dois fest_rio_2007_tsai2relacionamentos paralelos com o duplo Lee se desenvolvem de maneira parecida. Em ambos Lee é débil, precisa de ajuda, quase incapacitado (ou mesmo incapacitado) de agir em próprio benefício. No começo do filme, Lee está numa roda onde as pessoas pagam um “vidente” para que lhe diga números. Lee está meio perdido ali, só o vemos muito depois. Recebe os números mas não tem dinheiro. É espancado, mas sequer reage. É depois, carregado num colchão até o prédio onde conhecerá Norman. É, então, o mundo se relacionando com ele, e não o contrário.

Forçado a se relacionar com esse mundo inóspito, Lee sai às ruas e acaba conhecendo Chen (Chen cuida, como enfermeira, do outro Lee em coma). Ela o vê (o Lee novo, o cabeludo) na rua e o reconhece, se sente atraída. Na construção em que Norman trabalha, no monumento à renovação urbana – mas que se assemelha a ruínas – eles vão completar essa atração amorosa que os une. Em meio à fumaça que desola a cidade, em meio a essas partículas latentes do fogo que está abaixo do mundo, Lee e Chen se beijam vorazmente. É extremamente importante perceber que, até este momento, não havia beijo desse jeito na obra de Tsai. Sempre vimos beijos tímidos, apenas duas pessoas enconstando suas bocas. Aqui não, é voraz o desejo dos dois, é voluptuosa sua vontade.

(Importante dizer que pela primeira vez em anos, Tsai filma em seu país natal, Malásia. Antes seus filmes eram rodados em Taiwan. É, portanto, clara a mudança de rumo, de Taipei para Kuala Lumpur.)

Norman, com ciúmes, pensa em matar Lee. Pensa em acabar com as chances de um novo tipo de relacionamento. Mas Tsai não poderia deixar isso ocorrer, é tempo de mudança, de carinho, de companheirismo, de amor mesmo. Chen sobe onde Lee e Norman estão. O antigo Lee observa, com olhos de lágrimas presas, a reconciliação, a esperança de que existirão tempos melhores e mais aconchegantes. E a água, novamente ela, carrega essa reconciliação nos seus braços, dessa vez, muito menos frios.
Lindo de chorar muito.



3 Commentários sobre 'Eu não quero dormir sozinho'

  1.  
    débora

    19 Fevereiro, 2008| 8:01 pm


     

    vi (apenas) os dois filmes mais recentes há dois anos e enquanto espero com ansiedade ver “Rebels…” na quarta que vem, na cinemateca, aqui em sp, estava googlando “tsai” e encontrei esses seus textos tão acertados, sem pedantismos de crítico, contaminado (no bom sentido) pela enxurrada de afeto que transborda dos filmes de tsai. (sim, a cena final de Wayward é, pra mim, a mais romântica do cinema, mais que qualquer beijo na praia. é “o” encontro… tão fulgaz).

  2.  
    Fernando Secco

    20 Fevereiro, 2008| 12:45 pm


     

    Tsai Ming-Liang é um dos maiores cineastas contemporâneos… “O Buraco”, por exemplo, é lindo de morrer, não dá pra não ver. Aliás, ver a obra completa do Tsai é capaz de mudar a vida de alguém…
    Bom saber que mais gente acha o final romântico. A maioria acha… “esquisito”. Pudicos! hahaha
    E obrigado pelos elogios! (eu nunca me propus a ser crítico, afinal…) Apareça sempre por aqui. Em breve vou botar um texto sobre o curta que Tsai fez para “A Cada um seu Cinema”.

  3.  
    débora

    22 Fevereiro, 2008| 3:11 pm


     

    (voltei pra enviar o link pra um amigo, este e os outros sb o tsai) então, morro de curiosidade (e desejo mesmo) de ver todos os filmes dele, mas onde posso encontrá-los aqui no Brasil? só mesmo torcendo para que exibam em festivais ou importando da frança? aguardo o outro texto =)

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