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Editorial Rolo 1


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Publicado em 27 de Setembro de 2007

O primeiro passo é sempre trabalhoso. Talvez como qualquer primeira impressão, sempre cheia de expectativas, demandas próprias e grandes definições, o primeiro passo de uma publicação confere um certo ar suspenso na atmosfera, que nos ronda – nós, claro, esses humildes quatro editores dessa longa empreitada que chamamos de Revista Moviola.

Importante dizer que a jornada foi longa. É talvez de um ou dois anos a aglomeração de conversas em torno da idéia de uma publicação desse tipo. E nessa conjunção de idéias, com ganhos e perdas ao longo desse grande caminho, sempre foi imaginada uma revista de Cinema, mas não só disso, dos seus entornos também: revista de Cinema pela origem acadêmica dos quatro editores, provindos do mesmo curso (de Cinema); ligada aos arredores artísticos do cinema pelas formações paralelas desses editores: pintores, desenhistas, jornalistas, fotógrafos, críticos de arte.

Ganhou corpo, portanto, a idéia de uma publicação de cinema, mas que sempre se pautasse pela relação da sétima arte com as outras; que soubesse claramente que o cinema não é nada mais que uma compilação de todas as outras artes, que surge delas, que deve a elas; e que, portanto, desse voz a esse imenso mosaico canibalesco e aglutinador que é o cinema. Talvez tenha sido dessa idéia de compilação, de colagem, que o nome Moviola tenha surgido. Talvez não, talvez tudo isso tenha sido depois: o nome Moviola surgiu muito antes dessa definição editorial atual. Mas se, depois de tantas mudanças, se manteve, foi por isso com certeza.

A Revista Moviola, então, será espaço amplo de trabalho. Publicará desde críticas de cinema, artigos e análises de filmes e filmografias – afinal, é ainda uma revista de cinema –, mas também publicará contos, fotografias, desenhos, artigos relacionados às artes plásticas, música, pintura e manifestações culturais em geral – afinal, é na verdade uma revista cultural.

Eis o caráter da publicação: bimestralmente, a princípio, a revista publicará uma edição fixa (chamada carinhosamente de “rolo”), onde constarão textos publicados por nossos editores e contribuidores, além de todo o material extra, relacionado às galerias, entrevistas, vídeos etc. Haverá, assim, apenas uma seção volátil na Revista, apenas uma onde as modificações serão cotidianas e não por edição: o blog. E essa seção especial cumprirá papel importantíssimo: será nosso centro de coberturas de festivais, de críticas de filmes em cartaz, de comentários em geral, de idéias, anotações e imaginações. Será nosso ponto de encontro mais íntimo com o leitor, espectador ou navegante.

A publicação bimestral será sempre pautada por um tema. Não com a idéia de restringir, mas inspirar. Nem tudo o que for publicado terá relação com o tema proposto, nem tudo se ligará. Mas o tema permeará toda a idéia da elaboração da edição, ou melhor, do rolo. Neste primeiro número, falamos do polêmico e batido Cinema de Autor. Na verdade, sobre a Autoria na Obra de Arte. Não à toa, claro.

É uma discussão que permeia a arte há muito. No cinema, especificamente, a autoria se questiona, ao menos de maneira mais acintosa, desde os anos 50/60, com a Cahiers du Cinéma (revista francesa de cinema, onde escreviam cineastas importantes como François Truffaut, Jean-Luc Godard e Éric Rohmer) e sua política de autor. Mas é importante analisar como a questão da autoria se relacionou com as outras artes antes disso.

No cinema a autoria é questão complexa, por ser uma arte extremamente coletiva. Exemplificam-se as diversas facetas de uma obra, com sua iluminação, disposição dos objetos em cena, figurino, som, até o próprio ator, até o próprio diretor ou roteirista. A polêmica rivalidade entre o filme de Diretor (matriz intelectual) e o filme de Produtor (matriz financeira) se mostra no cinema de forma tensa. Nas outras artes, a relação com a autoria se desdobra de maneira diferente. Talvez seja muito mais fácil entender que um quadro foi feito por quem pegou o pincel, misturou as tintas e o encostou nas tintas e depois na tela.

Ainda assim, na pintura, há toda a questão da valoração do objeto, latente e presente. Mas isso deixo por aqui. Walter Benjamin, em A Obra de Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica, já disse tudo o que devia ser dito. Atualmente, ainda, tudo isso se dilui ainda mais: a Internet, a possibilidade de produção e publicação imediatas, o compartilhamento de arquivos, o digital. O autor é, portanto, figura difícil de visualizar. Acaba se tornando meio intangível. Definir um autor vira então jornada pessoal de quem o faz. Torna-se uma definição ora política, ora para afirmar afinidade.

Fica, depois da morte de Michelangelo Antonioni e Ingmar Bergman, a ordem do dia: perceber até que ponto a autoria ainda é possível de se lidar. Feito isso, afirmar novas propostas estéticas, produtivas e, portanto, políticas para a arte contemporânea.

Não, essa não é tarefa pertinente a essa revista. Cabe aos artistas, aos criadores de signos, inventores de mundos. Caiba, talvez, ao leitor que nos conhece hoje e aceita esse desafio.



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