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A Curva e Galápagos


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Publicado em 27 de Setembro de 2007

Muitas linhas já foram escritas nesses últimos tempos sobre como a tecnologia tem impulsionado a expressão audiovisual. Como diz Eduardo Coutinho, em entrevista nesta primeira edição da Revista Moviola, todos querem ser autor. Todos querem ser produtores de imagens, de histórias. E é por isso que lançamos esse número com dois curtas-metragens que passam longe dessa pretensão de autoria. São vídeos, na verdade, que negam em grande parte a existência do autor, trabalhos que buscaram em imagens de outros a sua pretensão de existir além de mero registro.

Trata-se dos curtas A Curva, de Salomão Santana, e Galápagos, de Fernando Secco. Aqui é necessário um adendo: durante as discussões para a preparação desta primeira edição, Galápagos foi lembrado como um vídeo com potencial a ser analisado por esta seção, embora existissem dúvidas sobre se seria apropriado escrever acerca do trabalho de um dos editores da Revista. Galápagos, no entanto, é importante para a discussão proposta, pois serve, inclusive, de contra-modelo frente o A Curva.

Os dois curtas-metragens existem a partir de imagens de terceiros. A Curva, do registro de uma festa de casamento e Galápagos, a partir da câmera de segurança de um prédio residencial. O que os dois vídeos têm de mais em comum é a capacidade de se apropriar e de transformar o valor de imagens que são produzidas quase que banalmente e a cada dia mais e mais.

A Curva

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Salomão Santana não produziu essas imagens. Não são dele esses enquadramentos mal recortados. A Curva é uma remontagem feita a partir de imagens de algum material de arquivo. Miguel Pereira, que assina a edição – juntamente com Salomão – é quem detinha o material (filmagens de família?).

A sinopse diz que é domingo em Juazeiro do Norte (CE). E só. Propositadamente, A Curva não se explica muito. É que está na intenção do realizador colocar em questão o valor de suas imagens. Mais propriamente, é intenção (re)estruturar o valor delas, (re)produzi-las, (re)significá-las.

Com duas ou três informações a mais, o vídeo fatidicamente cairia na categoria do documentário. E embora de alguma forma o seja, ele parece não se adequar exatamente no sistema da não-ficção. As imagens são de alguma festa do final dos anos 80, mas Salomão não se preocupou em melhor localizá-las. Criou-se assim um pedaço de compreensão, um recorte sobre o entendimento do que pode ser.

Em A Curva, os planos escolhidos quase sempre são o momento do desconforto frente da câmera. Pessoas que cumprem o ritual comum às festas de família e comedidamente se “escondem” da filmadora, essa máquina que eterniza o que há de belo e ridículo. É sobre esse medo que Salomão está falando?

A primeira vez que o assisti fiquei com essa impressão. Fiquei vendo essas pessoas desconfortáveis, algumas tristes. Cheguei a achá-lo desrespeitoso por causa disso. Mas hoje, o que me parece mais essencial é essa pretensão de ser documental e vídeo arte ao mesmo tempo. A Curva na sua total ausência de informação, acaba revelando elementos imprescindíveis da nossa cultura brasileira.

Galápagos

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Galápagos, por outro lado, tem uma relação diferente com essa apropriação do registro documental. Porque em Galápagos trata-se exatamente de um roubo.

O curta de Fernando Secco se coaduna com algo que o documentário nacional contemporâneo vem se questionando há alguns anos: a relação entre ficção e não-ficção. Galápagos, entretanto, pretende colocar o sistema em cheque quando introduz no seu registro um ator.

Explicando: o vídeo é uma captura da imagem de segurança da portaria de um prédio residencial. É um plano-seqüência. Na banda sonora, uma narração em OFF, um personagem que se ressente da vida, do tédio. Quem é esse personagem? Pergunta aparentemente sem solução, pois são muitas as respostas possíveis.

Nada mais banal se não fosse a presença de um ator. Anderson Alves, figura já tarimbada entre curtas universitários, faz a narração e uma intromissão física no registro do cotidiano daquela portaria (ele atua?). Ele pede uma informação ao porteiro e some. O diretor jura que Anderson nem sabia que sua imagem estava sendo gravada. O ator é convidado a atuar, a ter seus passos registrados sem sequer sabê-lo.

É interessante a relação que o ator faz no vídeo porque desestabiliza a compreensão, muito embora o OFF deixe claro que o curta se pretende mais ficção do que qualquer outra coisa. Mas é uma ficção composta sobre um arcabouço quase que puramente documental.

Essa relação entre o encenado e o não-encenado vem sendo debatida há muitos anos entre documentaristas. E são muitos os exemplos das quantas formas diferentes essa questão pode ser apresentada. Para ficar só em alguns exemplos recentes, há Santiago, de João Moreira Salles; Juízo, de Maria Augusta Ramos; Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho.

O mais estranho é que Galápagos, embora suscite toda essa questão, não é absolutamente um documentário. Nunca foi.



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