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Cinema Vertical


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Publicado em 27 de Setembro de 2007

Não sei direito quando isso começou. Não sei se foi em 2005 ou 2006 que juntamos uns amigos e dissemos uns pros outros que “éramos o Tv Primavera”. Até hoje existe uma excitação grande em dizer isso, mesmo sabendo que temos pouquíssimos trabalhos lançados e exibidos, mas é como se tudo fosse uma grande piada. Nomes como Tv Primavera me fazem lembrar muitos grupos de super heróis como Thundercats ou até X-Men, não sei porque. Soa como uma anti-pretensão, um nome débil, mas que ao mesmo tempo carrega um forte sentimento de grupo.

Até Cinema Vertical acho que a gente não sabia dividir o que era o coletivo e o que era o grupo de amigos a qual fazíamos parte. Foi muito importante nos ver agindo naquele dia pra entender que éramos realmente um coletivo e que tínhamos idéias que nos agradavam e que nos divertíamos muito com isso. O que era um coletivo paralelo, de amigos que se juntavam pra almoçar juntos, fazer vídeos, ir pra praia, e ouvir musica, foi carregando um sentimento forte de identidade e tudo mudou no SPA das Artes de 2006.

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Pra quem não conhece o SPA, é importante deixar claro que é um momento imperdível de se estar perto, ver a cidade ser palco de momentos imprevisíveis, reações imprevisíveis, e principalmente, ver a cidade com outros olhos. Estudo arquitetura e, querendo ou não, o SPA se torna um momento mais especial pra mim por isso, minha relação com a cidade muda pra caramba e, putz, que ótimo que isso acontece. Um festival de artistas que forçam uma variedade de intervenções urbanas numa cidade como Recife, só faz aumentar o clima especial de Setembro por aqui.

Acho que foi Jonathas de Andrade, ilustre amigo e artista, presente na primeira formação do primavera, que sugeriu a idéia de uma intervenção na cidade, no formato vertical. Seria formado por 1 tela, e ela seria deitada, gerando um aspecto vertical. Quando o período de inscrição para o SPA chegou, após analizarmos uma tentativa frustrada de conceber uma intervenção Drive-In para o Pátio de São Pedro, resolvemos escrever um projeto para desenvolver as idéias que Jonathas havia sugerido. Achar uma localização para o ato e inserir mais 3 devices de projeção, dispostos verticalmente, foram passos que tomamos imediatamente para conceber como seria o material exibido.

Nesse ponto, o mais comum era pensar em como iria ficar lindo as 4 janelas de projeção agindo juntas e criando uma paisagem diferente na Conde da Boa Vista, realmente empolgante para jovens videomakers que buscavam fazer um trabalho de forma atípica, pelo menos diferente do que vínhamos fazendo.

O que se viu no dia foi, felizmente, algo muito mais forte.

Nenhum de nós tinha idéia do tamanho do público que estávamos atingindo, muito menos da forma como estávamos atingindo. Era de nossa intenção sim, buscar a atenção do transeunte, proporcionar a atenção da videoarte pra fora do espaço de museu, criar espaços independentes de exibição (mini Times Squares). O que se viu em 11 de setembro de 2006 em Recife foi na verdade um momento caótico catalisado pelo Tv Primavera, responsável apenas pelo papel de produzir e exibir tais vídeos em tal lugar.

Pouco a pouco foi ficando muito claro de que estávamos tão maravilhados e espantados como qualquer transeunte, caiu a ficha de que tínhamos feito tudo aquilo pra nós mesmos, de certa forma. “Aquilo” podendo se referir tanto ao Cinema Vertical quanto ao próprio Tv Primavera, toda essa idéia de criar um grupo cross entre arte e vídeo da forma como foi criado. Falhas técnicas geraram distorção na posição das janelas e atraso para inicio da exibição, diminuindo o nosso publico alvo, o cidadão desavisado que pega ônibus às 6 horas da noite de volta pra casa.

Nada disso parecia ter importância para quem estava por lá, se espremendo entre as 60 pessoas que estavam em cima da marquise woodstock no 1º andar, que se formou como um tipo de camarote indie. Até hoje agradeço pelo fato da laje da marquise não ter caído. Cláudio Assis não teria visto o lançamento de seu Baixio das Bestas e eu seria acusado de genocídio, ou pior, de rotularem o Tv Primavera como Genocide Art.

Quando os ícones de Análise Combinatória inauguraram a exibição, todos desceram para ver os vídeos lá de baixo, onde a vista era mais completa. Realmente foi um momento único, ver tanta gente correndo pela Conde da Boa Vista, para ver os vídeos da ponte que liga a Av. Guararapes. Esse foi o momento que eu passei a ver o Cinema Vertical como uma grande catarse social, em que a nossa exibição era apenas o motim para aquelas pessoas estarem ali. A coisa toda só aconteceu pela presença delas e, da temida, porém real, chuva torrencial que nos esperava.

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Depois de muita ameaça de pingos, eis que realmente começa a chover, de forma crescente e incessante. A maior ironia é que a água se iniciou durante a exibição de Combustão, vídeo inteiramente feito com experimentos com fogo. Obvio de se dizer, mas foi lindo o contraponto de imagens.

Depois a coisa foi perdendo a graça. Principalmente pra mim, que tinha passado tempo demais arquitetando planos b do que iria acontecer se chuvesse, me ver dentro daquela situação foi meio claustrofóbica. Piorou definitivamente quando o projetor superior queima durante a exibição, deixando apenas 3 telas restantes para o resto da intervenção. Assistimos a Corpo, sem a cabeça do ator principal e isso tudo dando muita angústia. Nesse ponto, eu já tinha encarado tudo como um grande circo e vi que meu papel ali era observar, não havia mais o que ser feito.

Lembro de estar num prédio vizinho na Conde da Boa Vista, observando a chuva e as projeções, as pessoas correndo e pensar em me jogar da janela. O que seria dito sobre aquilo? Intervenção Urbana? Urban Art? Seria algo bem à Aslan Cabral, Goodbye World… A coisa estava tão surreal pra mim, que não seria um qualquer suicídio. É importante deixar claro que essa era uma idéia basicamente sarcástica.

Não me joguei.

Quando o último vídeo termina, eu desço e me dirijo à central onde estão todos. Nos abraçamos e lamentamos a chuva. Percebo que eu sou o mais desanimado de todos e, depois de conversar com Luciana Freire, eterna primavera, concordo que a chuva, de fato, coroou um momento único, uma experiência muito mais potente do que se fosse uma exibição como estávamos imaginando como Tv Primavera. Lembrei nessa hora de um dos primeiros projetos do Tv Primavera, Jogos De Inverno, que não havia dado certo pelo excesso de chuva na praia.

Ainda ouço ecos fortes do Cinema Vertical quando se fala do Tv Primavera. Uma coisa nunca vai ser nada sem a outra e, definitivamente, nunca mais da mesma maneira.

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