Revista Moviola – Revista de cinema e artes » Apontando a câmera para cima

Apontando a câmera para cima


Por

Publicado em 27 de Setembro de 2007

malick.jpg

Quando em O Novo Mundo, filme de Terrence Malick, soam os acordes de O Ouro do Reno, há o encontro da Europa com a América. É a chegada de uma expedição à costa ocidental e o início de uma colonização à base da força. Enquanto Wagner soa seus acordes em busca do que há de mais profundo, a câmera de Malick observa o desconhecer.

Terrence Malick tem um olhar Romântico frente ao mundo. Um olhar pessimista. Malick, autor bissexto, dirigiu quatro filmes ao longo de três décadas. Sua obra é recheada de um invisível que ele busca compreender.

A América intocada é parte dessa compreensão. O Novo Mundo conta a história de Pocahontas, a índia que se apaixona e torna-se mulher do colonizador. Porque voltar a essa história tipicamente americana?

A música que Malick toma emprestado de Wagner é síntese do que vem falando desde, pelo menos, seu filme anterior, o Além da Linha Vermelha. Wagner foi buscar na mitologia alemã o arcabouço para suas óperas. O Ouro do Reno é uma lenda que mistura elemento pagãos e cristãos. É a história de um anel que repousa sob a água. É daí que J. R. R. Tolkien retira seus principais elementos para a construção da sua saga O Senhor dos Anéis. E assim como no romance, o anel é uma representação de poder. Quando ele é roubado, há o desequilíbrio. É uma das grandes representações arquetípicas: o fogo de Prometeu, o fruto do conhecimento. Interessante notar que Wagner terminará sua tetralogia com a ópera Parsifal, que conta a história dos templários. A busca pelo Santo Graal; a necessidade humana de encontrar Deus na terra.

Malick, com seu olhar Romântico, têm questionamentos semelhantes. Em O Novo Mundo, enquanto soam os acordes de Wagner, chegam as caravelas. A música é enorme como aqueles navios; enorme como aquelas árvores que deixavam os homens tão pequenos frente ao mundo. Terrence Malick sabe qual é o tamanho do homem. E mostra-nos apontando a câmera para cima.

Muita morte escoou sangue no sonho do encontro com o divino. Ao longo dos séculos, o Graal se metamorfoseou. Deixou de ser apenas um objeto, virou uma idéia, uma utopia de Éden.

Quando a Europa aprendeu a içar grandes velas e enfrentar os dragões marítimos, o Graal se transformou no Novo Mundo. Europa, berço da civilização, berço do renascimento, motivo do encontro do divino no homem. Essa Europa foi buscar o Paraíso no além horizonte. Essa Europa achou que tinha encontrado a Fonte da Vida nas terras imaculadas, nas regiões que mãos brancas ainda não cavavam, não plantavam. O Novo Mundo era a esperança de um recomeçar, a comunhão com um futuro.

Terrence Malick se apropria dessa utopia de Paraíso na Terra e dessa necessidade que o homem – vira e mexe – tem pelo sublime, pelo arrebatamento. A relação com o sublime, seja pelo medo ou pela admiração, tem a propriedade de fazer o homem ver-se um pouco mais como bicho; encarar-se um tanto mais como ser mortal.

O homem urbano ao olhar para o mundo o faz de maneira diferente. Vivemos em edifícios, voamos sobre as nuvens, cruzamos continentes em poucas horas. Era um olhar diferente na época que o mundo parecia mais gigantesco.

É recorrente para Terrence Malick problematizar a presença do homem, o alongar do tempo para saber mais sobre a dor humana na terra. Em Além da Linha Vermelha, a mesma câmera que mostra as grandes e imaculadas árvores da América de Pocahontas, mostra o que há de intocado e desconhecido para os americanos na Ásia da Segunda Guerra Mundial.

Em ambos os filmes há um estranhamento vísceral com a terra estrangeira. Em ambos os filmes, estrangeiros chegam de barco para tomar uma terra alheia.

Malick parece preocupado sobretudo com o que há de profundo e incompreendido no homem.

Em 2008 Malick quebrará o estigma do diretor de grandes hiatos e lançará Tree of Life. A julgar pelo título, seguirá seus questionamentos acerca da presença humana frente à natureza, frente esse medo e fascínio que o acompanha por toda a obra



Deixe um comentário

(obrigatório)

(obrigatório)


Dê a sua opinião. Mas lembre-se: os comentários serão moderados. Apenas após análise dos editores eles serão postados.



RSS feed para comentários deste artigo | TrackBack URL

 

Por Revista Moviola

6 de Maio de 2013

  O documentário Brasil Orgânico (2013), dirigido por Kátia Klock e Lícia Brancher, integra a programação da segunda edição do Green Rio, seminário organizado pelo Planeta Orgânico, nos dias 8 e 9 de maio, no Jardim Botânico. A sessão, com lançamento do DVD do documentário, acontece na quarta-feira, 8 de maio,  às 11h30, no Espaço [...]

Por Maysa Monção

25 de Abril de 2013

(Londres, Moviola) – Ao abrir a 2ª. edição do Sundance London, nesta quarta (24/4), o diretor Robert Redford, em entrevista coletiva, afirmou que eles vieram no ano anterior, a convite, de um modo modesto. Estão voltando, então, porque o primeiro ano fora de Utah foi uma boa experiência. Na verdade, a edição londrina do Sundance [...]

Por Revista Moviola

5 de Abril de 2013

  No próximo domingo, às 9h, será exibido no cinema Odeon Petrobras, na Cinelândia, o filme O dia que durou 21 anos, de Camilo Tavares. Após a sessão haverá debate com: Carlos Fico (professor de História da UFRJ), Denise Assis (Comissão da Verdade) e Ivan Proença (capitão cassado em 1964). E tem ainda a Sessão [...]

Por Maysa Monção

1 de Abril de 2013

  (Londres, Moviola) – No dia de S. Patrício, padroeiro da Irlanda, realizou-se em diversas salas do Reino Unido uma première conjunta do último filme de Ken Loach, O Espírito de 45. O evento contou com a presença do diretor, último baluarte vivo de um cinema engajado à gauche, uma espécie de Eric Hobsbawn da [...]

Por Anna Beatriz Lisbôa

15 de Março de 2013

Anna Karenina, de Joe Wright (Anna Karenina, 2012). Apesar de a história de Anna Karenina ter sido adaptada várias vezes para o cinema e para a televisão em pomposos dramas de época, há elementos na prosa de Tolstói que não pertencem a esse gênero, tão obcecado em produzir um registro fidedigno que às vezes se [...]

Anima Mundi Animação animações Brasil Cannes CCBB Cineclube Cinema cinema americano cinema brasileiro Cinema francês cinema inglês Curta Curta-metragem Curtas Documentário Entrevista FBCU Festival Festival de Cannes Festival do Rio Festival do Rio 2009 Festival do Rio 2010 Festival do Rio 2011 Festival do Rio 2012 festrio Fest Rio França Gay Karim Aïnouz Literatura Mix Brasil Morte Mostra Mostra de Tiradentes Música Odeon Oscar Poemas Poesia Première Brasil Rio de Janeiro Teatro Versos É Tudo Verdade

WP Cumulus Flash tag cloud by Roy Tanck and Luke Morton requires Flash Player 9 or better.