
Anna satisfaz suas pulsões com Zanevsky, mero objeto de prazer.
Anna M, de Michel Spinosa, 2007, França. Mostra Panorama.
Michel Spinosa homenageia, já no título – Anna M –, François Truffaut e A História de Adele H, com o qual guarda o mesmo pressuposto: a heroína enlouquece porque ama demais, sem medida. No entanto, se Truffaut questiona os limites sociais codificados entre o amor e a loucura – que nascem quando emoções brutais e narcísicas são cerceadas pelas regras que a sociedade impõe em prol da mútua convivência –, Spinosa envereda desde o início pelo terreno patológico. Anna vive solitária e oprimida pela mãe, tem poucos amigos e emprego desinteressante, de modo que o atencioso Dr. Zanevsky (que somente cumpre seu dever) acaba por lhe ativar a doença, ou seja, a fome descontrolada por amor, companhia, entendimento e carinho. Embora, através de Anna, o diretor relaciona a obsessão da protagonista quanto ao médico com o ato de se dedicar ao sagrado e ao divino, ela não se submete à loucura em virtude de qualquer sentimento altruísta – como Adele H –, mas antes devido ao egoísmo e ao desejo da posse, que a motiva a perseguir seu objeto idealizado de prazer. Anna M, logo, fecha-se apenas sobre a psique sado-masoquista da heroína, que procura satisfazer a todo custo suas pulsões eróticas.