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A Cortina de Açúcar


Por Paulo Ricardo de Almeida

Publicado em 27 de September de 2007

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“Pioneiros da Revolução”: Camila Guzmán Urzúa está ao centro.

A Cortina de Açúcar (El Telón de Azúcar), de Camila Guzmám Urzúa, 2006, França. Mostra Doc Latino.

Na seqüência mais impressionante de A Cortina de Açúcar, Camila Guzmán Urzúa filma duas imagens simbólicas para a Revolução Cubana: na primeira, estátuas de cera de Fidel Castro e de Che Guevara nas matas de Sierra Maestra; na segunda, o uniforme do cosmonauta do país que viajou ao espaço com os soviéticos. Se o regime há quarenta anos no poder as utiliza como peças de propaganda, a jovem cineasta trata de subverter-lhes o significado, a fim de mostrar o atraso de uma Cuba anacrônica e parada no tempo, que vive das falsas glórias do passado remoto. Premiado no Festival de Cinema do Real – mais importante do gênero documentário –, A Cortina de Açúcar desvenda a agonia política, econômica e ideológica da ilha socialista, que condena seus milhões de habitantes ao exílio, não apenas físico, como também afetivo.

Camila Guzmán Urzúa, de somente 36 anos, mora na França. Chilena de nascimento, adotou Cuba quando seus pais fugiram do golpe militar que derrubou o governo democraticamente eleito de Salvador Allende. Trocaram o sonho chileno pelo cubano, onde Urzúa, nas décadas de 70 e 80, atuou como “Pioneira da Revolução”, ou seja, estudantes treinados para comandar a linha de frente do regime nas próximas gerações. A diretora retorna ao país com proposta simples, mas poderosa: entrevistar seus ex-colegas de classe, descobrir o que lhes ocorreu nos anos de ausência, questionar sobre os rumos da política castrista e das expectativas que nutriam por ela.

Munida da própria câmera digital e narrando o filme em primeira pessoa, Camila Guzmán Urzúa realiza experimento personalíssimo que se aproxima mais do diário de viagem que do modelo clássico e engessado do documentário de entrevistas. Suas conversas informais com velhos amigos são reencontros emocionados em que as lembranças fluem embaladas por nostálgica melancolia. Todos são unânimes em reconhecer que passaram a infância no auge econômico do regime cubano, quando não faltava a ajuda soviética com petróleo e outros bens, e em apontar igualmente que o Estado foi incapaz de garantir auto-sustentabilidade ao país, que atravessou gravíssima crise financeira logo após a queda do bloco socialista no Leste Europeu. A cineasta conclui, lúcida e crítica, que foram enganados, que talvez o sonho no qual acreditassem jamais tenha existido, ao mesmo tempo em que exalta a capacidade do povo cubano de superar as adversidades, de se adaptar aos problemas que o governo falido lhes impõe, de trazer a “realidade oficial” para a verdade cotidiana e fazê-la operar da melhor forma possível.

Em A Cortina de Açúcar, Camila Guzmán Urzúa sobrepõe, como vozes em off, os depoimentos de seus antigos companheiros com registros das ruas decadentes de Havana. Enquanto exilada – física pela distância que separa Cuba e França, e afetiva pelo abismo que se coloca entre os anseios do passado e as decepções com o presente –, a diretora volta aos locais de suas memórias para constatar que restaram somente prédios em ruínas. Dos ex-colegas, não pode entrevistar a maioria, uma vez que também abandonaram o país – os poucos que ficaram se encontram sozinhos, pois seus familiares já emigraram, legal ou clandestinamente.

Na outra seqüência impressionante (e assustadora) de A Cortina de Açúcar, Urzúa pede ao entrevistado, de passagem pela ilha em visita aos pais, que enumere todos os “Pioneiros da Revolução” que deixaram Cuba. Há, pelo menos, mais de vinte, espalhados por Argentina, Brasil, Canadá, EUA, Espanha, França, Austrália, entre outros países. Foram embora porque lhes ensinaram no colégio a serem médicos, advogados, economistas, físicos, cineastas, enquanto o governo decadente e anacrônico oferece como única opção emprego mal-remunerado na burocracia estatal. O regime que se autofagocita está com os dias contados.

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2007

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