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De dentro da alma mole das coisas


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Publicado em 26 de Setembro de 2007

Tilintaram duendes e fadas enquanto a tarde escorregava indolente nas minhas janelas. Havia três grandes ventiladores, mas ainda assim o pouco oxigênio presente no ar se ocupava em bolinar com a ponta dos dedos as telhas antigas do casebre, que àquela hora faziam a sesta.

Do chão, eu pressentia que se anunciava um grande acontecimento. E então chegava a mulher e perguntava por “antiqüidades”; vinha o homem e investigava os relógios de parede; o ourives do outro lado da rua tentava puxar conversa para, como sempre, fracassar.

Eu pensava em entregadores de pizza, comerciantes, comerciários, lavadeiras, secretárias, motoristas de ônibus, feirantes e, por fim, me distraía com a lembrança de um vestido de bolinhas à venda em uma loja fajuta da Ouvidor. As fadas azuis da estante três me repreendiam, mas eu me perdoava, porque este era um dia realmente quente.
De repente, um paralelepípedo se soltou da calçada em frente. As mesas Luís XIV, estupefatas, permaneceram imóveis, e os duendes, em sua habitual reserva, olharam de soslaio. Uma mulher caiu, alguns correram para acudi-la. E fim.

Já não eram seis horas? Não, não eram. Quatro da tarde. Quatro da tarde. Quatro da tarde. Quatro e um. Escorri azeda atrás da mesa de mármore rosado. Deitei nela a cabeça e vasculhei a lembrança do garoto novo que tinha entrado em um ônibus em que eu viajara havia já muito tempo. Foi com preguiça e desânimo que me entreguei a ela por alguns minutos e, quando chegou a velha para buscar o lustre de vidro, eu estava no fundo da loja, crescendo e diminuindo sem grandes propósitos. O garoto se foi e a velha também, ambos sem respostas. Levantei do chão sujo do banheirinho três por quatro.

Tocou logo o telefone, e a frase que ele pronunciou soou tão rouca e longínqua, que pensei em vendê-la separadamente. Deixei o aparelho falar, pedir, implorar e até engasgar – neste momento, sádica, peguei o gancho: sim, temos móveis do século XIX, um montão deles; não, não alugamos nada para festas, nem as fadas; não, não estamos precisando de importadores; sim, dependendo do lugar, podemos até entregar, mas daí tem o frete; não, não somos um hospital; não, não aceitamos cheque pré; não, não negociamos preços; não, minha senhora, não negociamos preços – e comecei a achar estranho falar no plural, quando estava eu ali sozinha naquela loja havia… quantos anos?

O tempo, este grande sacana. Curioso querer que ele passe tão devagar ao longo da vida e tão rápido ao longo de um dia. Falar nisso, já não deu seis horas?

Veio entrando em foco, a partir do outro lado da rua, um homem de seus quase quarenta, bem-vestido, terno e gravata, jeito de executivo. Olhou a fachada da loja e continuou caminhando, em direção à minha porta. Bonito?… Bonito, bonito, sim. Permaneci atrás da mesa de mármore, esperando o encontro, sem respirar. Mas que mundo!, difícil não se verter a tantos abrilhantamentos, e o homem se deteve na minha calçada para pechinchar com os camelôs uma nova bateria para o celular.

Ai, que vontade de fumar, que vontade de fumar, mas eu parei, eu pelo menos estava parando, com direito a estratégia terrorista: a foto do meu pulmão cansado na porta da geladeira. Sabendo, no entanto, que só se cura um vício com outro, fui até a cafeteira junto à caixa registradora e coloquei mais pó no filtro. Derramada a água, o aparelho começou a ronronar baixinho e fumegar. Passados alguns segundos, espalhou-se o cheiro do café fresco por toda a loja – o que me deu, cada vez mais, vontade de fumar.

Tornei ao banheirinho imundo à procura do maço de cigarros, que não encontrei. Pensei em fazer uma faxina, mas esta não era a idéia de uma entusiasta. Voltei dos fundos da loja e vi que as coisas pareciam estranhamente ocupar cada qual seu lugar, como em um soturno jogo de sete erros: mesas, cadeiras, abajures, divãs, fadas e duendes. As sombras dos outros casebres haviam se esticado sem cerimônia sobre os velhos paralelepípedos. Seis horas.



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